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Pedras de sol vermelho

Gentilmente, pôs o fumo preto e amassado que se equilibrava entre seus dedos trêmulos no meio de seus lábios frouxos e molhados, e cruzou lentamente as pernas feito mulher, trazendo a bainha direita da calça social cinza e suja para a altura da canela magricela e engelhada. Uma tragada forte que lhe roubou as bochechas foi seguida por uma tosse rouca. Baixou os olhos hepáticos para o menino que apanhava pedras no chão. Era um final de tarde comum. O vento balançava o chapéu de palha do velho e fazia-lhe apertar os olhos, protegendo-se. Um vento que vinha do horizonte distante de um sol que caia já vermelho.Crianças corriam ao redor da praça. Ele tossia sempre. Uma tosse velha, áspera, rouca, embrutecida, cansada. O menino apertou as pedras na mão suja de areia e olhou para o velho. Engoliu uma porção de saliva de vez e arredondou os olhos. De longe, ouvia-se um cantar sincrônico de pássaros e um balançar preguiçoso de galhos e folhas daquelas árvores pesadas. A mão do menino ia ficando vermelha e as pedras já lhe deixavam pequenas marcas. A fumaça do charuto subia em forma de serpente e era letal. O menino ficou pálido. Veio-lhe o vulto da mãe, da igreja, da cruz, do cemitério e do céu. Respirou. As pedras agora caiam sem pressa uma a uma e já não havia mais dor em sua mão. O velho sorriu. Disse alguma coisa muito baixo pra si e deu outro trago. O menino virou-se levantando os cotovelos na altura do peito, contrapondo-se ao vento que assanhou seus cabelos e correu em passos leves e largos em direção ao sol vermelho que agora estava por trás da serra escura.
O chão da praça estava coberto por folhas secas e formavam um tapete. As pedras já não doíam nas mãos, a serpente se desfez na atmosfera e o velho fechara os olhos com a força do vento.
Um excremento verde, gosmento e minúsculo de um passarinho qualquer caiu no doce do menino que brincava do outro lado e misturou-se à calda de caramelo. Os olhos verde-claros de Beatriz tremeluziam à luz cansada do poste que iluminava a praça.
Um cachorro vira-lata, na flor da idade, morreu atropelado pelo carro do lixo.
E o velho tossiu novamente.
Josué Mendonça
Enviado por Josué Mendonça em 19/11/2006
Código do texto: T295211
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Sobre o autor
Josué Mendonça
Salvador - Bahia - Brasil, 36 anos
52 textos (2263 leituras)
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