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DIVA

Pingam lentamente as gotas,  redondas, alongadas, peroladas , vermelhas. Gotas de sangue ainda  quente, ainda  partes da mulher grande, cheia de carnes  e gordura. Estranho espectro dos dias idos, da fama fácil, da celebridade  arranjada.Podem até duvidar  quem quizer, mas aquele corpo disforme , bilioso, gotoso e gorduroso , já foi cobiçado  por senadores , empresários  e dizem, até presidentes da República.  Agora queda ali na cama imensa, branca , pálida, enrolada em sua echarpe preferida , e nua,desafiadoramente nua em  seu aspecto paquidermico . Deixou de lado os amigos , a fama  e o dinheiro  quando seu único  e verdadeiro amor  se jogou da Pont Neuf em uma tarde quase noite de um outonal inverno. Cena de folhetim de segunda , o amado entregou-se nos braços da morte  após  ter inutilmente  se embebedado  de absinto, poeta arcaico.Depois da morte do rapaz tuberculoso e sifilitico ( dizia que gostaria de morrer como Chopin) , ela se fechou  em seu apartamento , eremita em uma cidade de solitários .Deixou as festas , a vida, a fama e não se importou mais  quando os tablóides  disseram que ela era uma atriz em decadência. Como tantas  procurou em escroques , aproveitadores , violentos e mulherengos , um pouco das carícias  que seu já obeso corpo  esperava. Entregou-se desta forma aos seus únicos dois  prazeres : sexo e comida. Em pouco tempo era  a cópia perfeita da decadência .Aqui se resenrolou  seu último  papel, sua última peça, sem platéia, sem aplausos, só com a luz  mortiça de um abajur.Abandonada, sem poder  quase mover-se , recebeu a visita da morte na figura de um de seus amantes .Uma conversa , uma rusga, um pedido de mais dinheiro , a recusa . Foi  o lampejo da faca, rápida e incisiva , a última visão que teve em vida .Morreu esvaindo em sangue, sem segredo. Diria até que partiu  desta vida  contente, pois  só assim  livrou-se do tédio , do calor e  da incipiente vida vivida .Longa vida, severina. Morreu a diva, nasceu a lenda.    
grotius
Enviado por grotius em 19/11/2006
Código do texto: T295457

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Sobre o autor
grotius
Santo André - São Paulo - Brasil, 61 anos
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