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O mundo, economia e gente demais

O mundo, economia e gente demais

Imagine que você mora com seu par em um apartamento de dois quartos, modesto, bom, limpo, aconchegante, tranqüilo e fresco. Vocês tem seus espaços, que são respeitados pelo outro, podem circular livremente em seu confinado reino e consequentemente vivem uma vida agradável.

Vocês vivem assim há dez anos, estão felizes e planejam ter um filho. Mas, algo acontece, você não sabe como, mas no período de uma semana, sua mãe vêm de visitar. O seu irmão entra em seu apartamento sem ter pra onde ir, brigou com a mulher. E trás 2 filhos. De repente seu apartamento vira um inferno. É lixo pra tudo que é canto. Falta comida, o filtro da cozinha começa a falhar por excesso de uso, o gasto com eletricidade aumenta, seu ambiente fica barulhento e conturbado e o banheiro está constantemente cheio. Tudo que há dez anos era muito bom, foi mudado drasticamente de uma hora para outra.

Realmente é uma visão caótica e bem desconfortável. Pare e aumente o foco da lente e veja essa realidade por uma amplitude maior, uma analogia reducionista, mas contundente. É assim que aconteceu com nosso planeta.

Levamos trinta mil anos para sair das cavernas e conquistarmos o espaço. Durante esse período nos estabilizamos, cultivamos, crescemos e alcançamos a maior marca de população de mamíferos do planeta, 2 bilhões de pessoas. Você e seu par, calmos em seu apartamento.

Nos últimos sessenta anos a vida em nosso planeta simplesmente triplicou. Somos, por baixo, seis bilhões de pessoas. Quatro bilhões e meio de pessoas que simplesmente apareceram no mundo, sem infra-estrutura, sem planejamento, sem água potável para todos, sem consciência de distribuição de renda, comida e direitos básicos. Somos seis bilhões de pessoas desgovernadas pelo mundo.

E o que isso causa?

Acho que a principal causa disso é que tudo, eu digo, tudo mesmo que fizermos vai repercutir de modo ruim para o planeta. Sim! Inventamos o carro movido a hidrogênio. Imagine centenas de milhões de carros emitindo vapor d’água na atmosfera? Isso não seria muito problemático com algumas dezenas de milhares. Mas centenas de milhões é diferente. Levar assistência básica a todas as pessoas do mundo. Isso requer quebrar, perfurar, encanar, manter, renovar centenas de bilhões de quilômetros de concreto, canos, plásticos, juntas, peças de metal. Enfim com dois exemplos apenas creio poder ilustrar o tamanho do problema que temos atualmente em colocar para toda a população mundial o mínimo necessário para uma vida digna.

A China mantém um controle de natalidade rígido e constante. Um país com um bilhão e trezentos milhões de habitantes tem que se preocupar com isso. Creio se a Terra tivesse um governo central ele também deveria estar se preocupando seriamente com isso, já que as estimativas de crescimento nos próximos cinqüenta anos é de mais três bilhões de pessoas. Totalizando algo perto de dez bilhões de pessoas no mundo. Coisa que é grotesca e totalmente insustentável.

É como se além de você seu par, sua mãe, seu irmão e os dois filhos dele. Chegassem mais três pessoas. Mas essas vocês não conhecem. E elas começam a comer, consumir, dividir o espaço com vocês. Alguma hora isso terá que dar problemas.

Infelizmente o mundo não é feito de pessoas que se amam incondicionalmente. Dez bilhões de pessoas que competem por comida, água potável, abrigo, espaço e posição em uma sociedade que não liga muito para como as coisas se dão, contando que continuem aí começa a ficar meio estranho. Começa?

Todo esse relacionamento humano atualmente tem um único nome, economia. Vivemos em função da economia e como ela afeta o nosso dia a dia. Mais da metade do mundo passa fome, não tem água, mora ao relento, sofre de doenças, sobrevivem igual a animais por conta da nossa implacável e “benéfica” economia. O que é economicamente viável? O que é economicamente sustentável? O que nos trará um retorno financeiro? Infelizmente esqueceu-se que a economia surgiu como decorrência da vida humana. Atualmente ela gira independentemente de qualquer vida.

Qualquer lucro de 30% na bolsa de Nova York tem algum paralelo com um criança agonizante morrendo de fome? Que os adultos que morrem de fome não tenham feito por onde, tenha sido negligente quanto ao seu futuro? Os mais cruéis se põem a pensar assim. Mas uma criança? A obrigação moral é nossa de cuidar, e cuidar o melhor possível, delas. Todas. Conscientizá-las de que não, elas não são animais que tentam sobreviver. Elas têm de conscientizar-se que vivem em sociedade. De que o futuro de todos dependem delas, de sua mente, se suas ações. E o que a economia nos ensina? O homem não interessa, desde de que continue aí.

Esse é o paradoxo. A economia gira sem ligar a mínima para o homem que roda em função dela, mas se o homem deixar de existir? Não há mais economia. A economia cava seu próprio fosso. E com ela leva junto o homem. Infelizmente não há como ver a coisa de outra forma, de uma forma otimista. A coisa é assim atualmente.

Felizmente há pessoas que ainda pensam. Que ainda têm essa capacidade. Pena que a maioria delas não está no comando das nações, das pessoas. O que é uma nação? Um orgulho idiota que se forma pela história da ajuda mútua entre pessoas próximas. Nações são naturais, decorrências diretas da historia humana, elevá-las acima do próprio homem? Não. Economia existe como decorrência natural da historia do homem, elevá-la acima da existência humana? O que vale mais, uma nota de cem dólares em seu bolso ou uma morte por desnutrição?

Fazemos o nosso trabalho diário. É aquele esforço de não correlacionar diretamente dois fatos. Esforçamo-nos ao máximo para convencer-nos (a nós mesmos) de que o meu trabalho, meu Ipod, meu tênis, minha geladeira, não tem nada a ver com a fome na África. Nada a ver com o aquecimento global. Nada a ver com a redistribuição de renda do mundo. Para quem leu o fantástico livro Freakonomics fica mais fácil perceber o que digo. Cabe aqui repensarmos como as coisas se correlacionam. Como que a economia atual leva o homem para sua própria cova moral se usada de maneira torpe, como é usada.

Mas isso não é algo global. É algo individual. Só se muda o todo rearrumando as peças. Cabe cada peça se mover, se ajeitar, tentar fazer sua parte, se não, bem, o todo não muda.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 19/11/2006
Código do texto: T295536
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz