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Crônicas da Esquina ( Nosso Bloco )

NOSSO BLOCO

Como sempre acontece desde a sua fundação, o B. C. EU SOU EU E JACARÉ É BICHO D’ ÁGUA volta ao centro do debate para que se decida o que fazer com ele. Sai, não sai; desfila, não desfila. E aí a velha decisão se aclara como se nova fosse: sai, mas não desfila. Afinal, já nasceu assim. Preso ao duro e quente asfalto da esquina, o réptil em questão é mais lento e, ameaçado pelo sol excessivo, prefere a guarida das sombras onde empaca feito um burro. De lá, regado à cerveja, vaticina: o bloco fica na esquina, com direito a banhos de mangueira improvisada pelo Zeca’s junto à árvore.
Aferrado ao pequeno nicho, nosso mascote paleozóico tem fobia do Boulevard. Edinho foi quem melhor lhe compreendeu o espírito sectário. Para o nobre amigo, o comportamento inato do bloco não é uma questão de capricho. Vamos que o bloco saia, diz ele. Após duas quadras da nossa esquina, continua, teríamos que voltar de táxi. Exageros à parte, o bloco parece lhe dar razão e, portanto, fica.
A reunião prossegue. Não à maneira dos centros acadêmicos onde costuma ser linear e enfadonha. Mas sim como convém a um bar e a um bloco: sinuosa por conta das cervejas, limão e maracujá; rastejante como as patas de um jacaré. Vozes que se chocam, conversas paralelas, assuntos sobrepostos. Luiz Otávio, por exemplo, ao lado do Luciano, tenta mostrar-lhe um samba ainda não feito, mas que promete. Nosso pierrô sorri afetuoso.
 Chico lavadeira alerta para o avançado da hora embora avance em considerações repetidíssimas. Grave, Marcelinho pede a palavra:
Olha só, gente! Eu penso que precisamos contextualizar essa história do bloco. Fazer uma interface com Vila Isabel. Enfim, inserí-lo no contexto do bairro.
  Grande figura tomada emprestada a Padre Miguel, Marcelinho é um apaixonado pelos antigos carnavais. Sou mesmo capaz de ouvi-lo dizer: precisamos resgatar o espírito do Entrudo!
Serginho cedae insiste nas fantasias para crianças e público infanto-juvenil. Edinho ri. Talvez lhe aflore à memória fantasias que nossos filhos nunca viram: pariô, sarongue, tirolês, toureiro. Não. Os foliões modernos não curtem muito essa história de fantasia e, no máximo, optam pelo surrado bate-bolas.
 Do outro lado do bar, o amigo Beça finge-se alheio. Como nos outros anos, ele sabe que as grandes decisões serão tomadas no momento exato. Nosso gnomo sabe que o samba exige bateria e que terá que subir os Macacos para fazê-la descer. É isso, tudo muito simples como um abraço de jacaré.

                                                                                Aldo Guerra
                                                                               Vila Isabel, RJ.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 19/11/2006
Código do texto: T295920
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Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 60 anos
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Aldo Guerra