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Sesta de um Pequeno Burguês

       Ninguém escreve mais versos em prosa, mas eu sou obrigado a fazê-lo, porque não sei se o que sinto agora é ou não poesia... Aliás é poesia sim! Entretanto não tendo os dotes de um Drummond ou de um Apollinaire, escreverei como posso, escreverei o que acho, isto não é um artigo e nem será publicado... Quem publicaria o que pensa um pequeno burguês depois do almoço enquanto balouça-se em sua rede de varanda, na verdade, na verdade mesmo (porque nem sempre é verdade o que chamamos de verdade), queria pegar no sono e dormir  a tarde inteira, mas daqui a pouco terei de retornar aos meus afazeres e daqui de cima vejo uma paisagem tão pacífica, há tantas aves cantando agora (essa história de que os galos só cantam de madrugada é pura lorota), e isso instintivamente me faz refletir e não sabem vocês o quanto é doloroso para um homem comum meditar. O que para os filósofos é um lazer, para nós é um terrível sofrimento, sofrimento sim, ou será que não é sofrimento ver esta vida desgraçada por nossas próprias mãos! Esta vida que poderia ser  de mãos dadas, é uma vida de olhares sutis de desprezo, de medo, de repugnância! Meus livros estão logo ali na outra sala e de que me serviram? De que me servem as mais belas figuras de linguagem se a ninguém posso pronunciá-las! É melhor cobrir meu rosto com o lençol, quem sabe com a escuridão, não consiga adormecer. Mas mesmo com o rosto coberto o barulho dos galos cantando chega até mim, ou melhor, mesmo tentando evitar, a vida aqui embaixo do lençol cobra-me uma posição e eu queria que fosse tudo uma vida mais pacata e franca, com cadeiras na calçada ao entardecer, com conversas frívolas nas praças à noite e com missas nos domingos... Mas a vida não é assim, puxa vida! É não, afianço-lhe que não é não: os que se sentam na calçada à  noite não o fazem para acompanhar pelo radinho de pilha a Voz do Brasil, não, sentam-se para futricar, bisbilhotar, sorrir falsamente aos que passam e assim sucede igualmente na Missa e na praça, tudo isso entre nós seres da mesma espécie, carentes das mesmas necessidades, que vida é esta meu Deus! Por que é assim? Por que tem que ser assim? E já começo a me entediar, daqui a pouco terei de enfrentar esses sorrisos falsos na volta para o trabalho... Será que é tão difícil para o ser humano descobrir uma forma de viver fraternalmente, sem demagogia! Temos os mesmos problemas, bolas, então por que não nos abrirmos uns com os outros, é tempo, ainda é tempo! Esqueçamos esse medo do julgamento que farão de nós, o ouro é ouro quer gostem ou não do seu brilho!
O celular está alarmando e eu tenho que ir. Torço para que tudo dê certo para que os seres que encontrar no caminho me sorriem francamente e para que eles também depois do almoço, num dia de domingo – quem sabe? - , possam durante a sesta, enquanto os galos cantam, refletir o quanto poderia ser diferente esta vida de dinheiro, de poder, de sangue, de orgulho, de instinto. Ah, oxalá que todos assim pensassem... Não quero ser um humanista, mas é que já tenho quarenta anos e nunca atravessei de pés descalços meu quintal! E só hoje foi que vim perceber que os galos também cantam de tarde, e como é belo ouvir a cadeia dos seus cantos estendendo-se pelos quintais vizinhos até o fim do mundo!
Ih! Já estou atrasado!

             Aracati-Ce., 20 de outubro de 2006.

André Breton

André Breton
Enviado por André Breton em 21/11/2006
Código do texto: T297364

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Sobre o autor
André Breton
Aracati - Ceará - Brasil, 31 anos
60 textos (11783 leituras)
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André Breton