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ACORDO PÉ E BUNDA

“Não confunda relação socialmente amistosa com amizade. São coisas extremamente diferentes.”
(de um amigo querido, para uma moça cujo sapatinho, conforme palavras dele, andaram encostando na bunda do próprio)

Meu querido amigo, não declino aqui seu nome porque não fui devidamente autorizada a tornar públicos os créditos da sua frase bem sacada...quando você me autorizar, aí é diferente. 

          Sei que não vai agradar a muita gente. Ótimo. Não estou no mundo pra agradar a ninguém. Sei que vai incomodar a muita gente. Ótimo. Quando incomoda é porque tem gente precisando pensar e repensar-se. E incomodar, convenhamos, é melhor do que passar em branco. Goste ou não goste de mim ou do que digo, tanto faz. Passar sem ser percebida é que deve ser dose pra elefante. E...bem, infelizmente, mesmo quando tento passar em branco, até hoje não fui bem sucedida. 

          A questão aqui é bem simples. Você vive algo muito legal com alguém e tudo vai de vento em popa até que uma das partes muda o rumo da vela (se falei bobagem, me desculpem, não entendo nada de veleiros) e decide que o barco vai pra outro lado. Ou pior, o barco fez água e está afundando rapidamente. E a parte que decide afundar tudo tem o péssimo hábito de dizer, no mais perfeito estilo musiquinha antiga “Sejamos amigos”. Ora, pitombas, quem quer ser amigo de alguém com quem dividiu o setor cama-mesa e banho? Não esqueçamos que amizade, meus caros, nada mais é do que amor, só que sem a parte da cama e do banho. No máximo, a mesa. 

          Aí você, que até então trocava segredinhos de alcova com alguém, vai ser “amiguinho” da criatura? Convenhamos, é pedir demais pra quem quer ser honesto consigo mesmo. Seja quem você é e diga claramente a frase do meu amigo aí em cima. Pelo menos, fica claro pra todo mundo que apito cada um toca nesse jogo. Pelo menos se sabe que ninguém precisa trocar de calçada, deixar de cumprimentar (já que somos obrigados a cumprimentar, por educação, gente que não suportamos), que não deixaremos de acudir a criatura se for atropelada (até cachorro a gente acode nessa situação), mas ...amigo??? Dá licença, mas o meu nível de espiritualização ainda não atingiu este estágio. Vai pro meu Credicarma, que resgato na próxima encarnação. 

          Sejamos quem somos na hora de não gostar disso ou daquilo, de dizer o que não agrada, de mandar procurar minhoca no asfalto com enxada de borracha, de ficar alegre porque a criatura encontrou um caminho que não cruza com o seu mas está feliz, de comemorar silenciosamente as vitórias do ex-afeto, de mandar um cartão de Descanse em Paz pra que o ponto final fique bem claro (se preciso for), mas não dá pra ser a gente mesmo desempenhando hipocritamente o papel de grande amigo. Jamais será a mesma coisa. 

          Sejamos humildes pra admitir nossa humanidade e nossas fragilidades. Discordem se quiserem, estão no direito. Mas ex é ex e ponto final. E não existe amizade, no pleno sentido da palavra entre os ex. No máximo, uma atitude de cordialidade e respeito (quando a coisa merece), pelo menos por uns ...oito anos depois do acordo pé e bunda. O resto, meus caros, é verniz social. Hipocrisia. Interesse. Coisa que não combina com quem se respeita e respeita o outro.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 21/11/2006
Código do texto: T297503

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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