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"O BONECO"

                       

Hoje você acordou bastante entristecido: não é  pra menos, o teu boneco foi embora!
Incrível! você dizia não gostar de criança, ,de repente se viu diante de uma realidade: a dor da separação. Assim que teu boneco chegou, no  momento você não gostou nada nada,sentiu antecipadamente o choro, temeu as noites mal dormidas, a perda da liberdade, a perda do silencio...Um estranho ser tomava o seu lugar. Você não dava a mínima atenção ao boneco , mas um dia ele chorou  e você para satisfazer a terceiros ,foi até a cama onde ele tentava dormir,e num gesto até, vamos dizer estúpido, colocou a chupeta na boquinha do “intruso”. Por curiosidade , você fitou-lhe os olhos e ficou semi deitado na cama que ele estava, e num instante algo aconteceu contigo; você ficou condoído com a sua solidão e resolveu brincar com o boneco. Ele apertou tua mão,sorriu com sorriso angelical,bateu as perninhas como querendo que você o pegasse. Você  olhou para que ninguém o visse com o boneco, e num instante, desengonçado segurou-o em teus braços.  Sinceramente ...  foi amor à primeira vista. Jamais você tinha sentido uma sensação tão estranha como aquela.
O boneco como que querendo mexer com teus sentimentos,  tocou  teus cabelos, arranhou teu rosto, sorriu, deixou  como de propósito cair a chupeta novamente e, você  desmanchou –se em emoção.
Tão rápido você o amou e tão rápido o levaram de você, na hora em que estavas aprendendo a amá-lo tanto. Ignoraram teus sentimentos ,e  nem levaram em consideração as tuas poucas porem intermináveis noites mal dormidas ,tentando acalmar as dores e a febre do teu pequeno..Simplesmente arrumaram as roupinhas dele, aquelas mesmas roupinhas que você já estava aprendendo a lavá-las e, como que para machucar teu tristonho coração, fizeram com que você, isto mesmo você, o levasse embora. Ficas-te  somente com a saudade,...Mas que imensa esta tua dor! Porque tamanha dor, se você ficou com o boneco por tão pouco tempo?
Eu conheço uma historia quase igual a tua, porem mais comovente:
Uma senhora ,na época jovem, disse ao seu marido: “estou sentindo enjôo, acho que estou grávida”
Depois de alguns meses, sentia as primeiras pésadas no interior da barriga, mais uns meses, outras e outras pésadas e cabeçadas, até que aproximou o nascimento. A expectativa era grande: Qual hospital? Qual médico? Tudo  irá bem com a futura mamãe, suportará o parto? E com o nenê , menino ou menina? Nascerá  perfeito?
Mas, tudo foi bem. Você nasceu bonito, forte, realmente uma graça,meu filho. Tua mãe comprou roupinhas na cor azulzinha, chupetas, macacãozinhos, mamadeiras, bercinho, tudo para você.
Você era o centro das atenções. Todo mundo queria te pegar no colo; tua mãe parecia uma fera guardando o seu filhote. Cercado de carinho e da proteção de dela , você cresceu... cresceu tão depressa que um dia ela te espreitou tomando banho, e, com a porta entreaberta assustou-se com teu tamanho...Puxa, meu filho já é um homem! Vinte e sete anos(viiiiinte e sete anos) você esteve com ela, todos os dias; sorrindo ou chorando, mas estava ali, ao alcance das mãos protetora de quem te fez nascer. E de repente, alguém, como fizera contigo, raptou e levou atrevidamente também o seu boneco . Te levou das suas mãos, como quem leva um bem exclusivo, sem que precisa dar satisfações a ninguém,e quando a dor invadiu o coração desta mãe, negaram-lhe também o direito de chorar e tentar amparar a sua própria carne, seu próprio sangue, sua própria vida. Hoje duas historias se cruzam: Teu boneco se foi, ficou tua preocupação: Será ele bem cuidado? Zelarão dele tão bem , assim como você estava aprendendo a zelar?
Outra emoção ainda continua...esta porem, bem mais forte,afinal,um boneco levado após vinte e sete anos, vinte e sete anos,não são vinte e sete dias.
         
Roosevelt Luiz de Souza Souza
Enviado por Roosevelt Luiz de Souza Souza em 21/11/2006
Reeditado em 26/11/2006
Código do texto: T297532

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Sobre o autor
Roosevelt Luiz de Souza Souza
Osasco - São Paulo - Brasil
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