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SÃO PAULO AOS OLHOS DE ESTRANHOS



         Talvez tenha sido por eu não ter nada a fazer, que me senti à vontade em São Paulo; à vontade em um mundo totalmente estranho para a minha cultura interiorana. Me senti livre...solto, naquele mundo totalmente novo para eu observar ou viver. A pessoa que estava ao meu lado, era e é tudo  que um homem precisa para ser o mais feliz do mundo. Sentia-me um semideus e, todos aqueles arranha-céus, com suas torres a ameaçarem o firmamento, estavam redimidos aos nossos pés. Eu, acompanhado por essa pessoa, via toda aquela cidade, com a oponência das suas gigantescas construções, redimidas aos meus desejos e caprichos, e se eu assim desejasse, poderia manipulá-la.
           A minha felicidade podia ser igualada a de uma criança em um parque de diversão em pleno domingo e era, simplesmente, uma nublada segunda-feira. Não uma segunda qualquer; era um dos dias mais importante da minha vida!
          Nas ruas, pessoas que aleatoriamente passavam à nossa volta, pareciam fantasmas e não podiam ser vistas por nós; que parte elas fariam na vida de adultos que estavam a descobrir um mundo novo em uma velha cidade dobrada aos nossos pés? Que conseguiriam eles fazer para que com as suas presenças viessem a nos importar? Nada. Absolutamente nada! Estávamos sendo invasores daquela Selva de Pedras que os nativos, omissos, indiferentes ou por covardia, não tentavam importunar-nos. E aquilo que estava acontecendo era o que realmente queríamos.
         No vagão do metrô... Ah! Aquela construção monumental parecia ter sido projetada só para nós a fim de vararmos toda a cidade em poucos minutos; tinha sido construída na mais perfeita ordem para abrigar-nos até mesmo de guerra nuclear... eu sabia que tínhamos toda proteção, até mesmo contra uma catástrofe. Para nos certificarmos de que tudo era realmente nosso, descemos no bairro da Liberdade e o que vimos... pessoas, com faces diferentes das nossas, olhos rasgadinhos, quase fechados, porém estavam despertas, pareciam encontrar-se em outro mundo... meditavam; estávamos num bairro de orientais. Para saber se tudo estava em ordem, seguimos até a Praça da Sé, e, a própria catedral, com a sua beleza, parecia convidarmos para que a invadíssemos. Assistimos ao sermão que não parecia condenar-nos. Se a cidade era nossa, aquele altar também era nosso.
         Resolvemos mais uma vez pegar o metrô, e aquelas foram as únicas vezes que nos humilhamos; tínhamos que descer várias escadarias, onde chegamos a quase trinta metros abaixo da superfície, mas, como sabíamos, para a nossa própria proteção. Desembarcamos do metrô na estação Paraíso... seguimos a olhar cada árvore, procurando descobrir o possível e impossível, como que procurando algo que fosse mais forte que o nosso amor... mas, nada...nada era tão intenso quanto nossos sentimentos. Estávamos eufóricos, a imaginar que era tudo nosso. Ao menos tínhamos tal impressão na nossa excessiva felicidade, pois, tudo e todos estavam indiferentes à nossa presença. A percepção para conosco era mínima ou quase nula.
         A cidade parecia dormir, parecia ter sido devastada por uma forte ausência de espírito, por um eterno abandono das suas origens e amor aos seus princípios.
         Como poderia a maior metrópole da América Latina estar dobrada aos nossos pés? Pés de intrusos que maquinavam tais pensamentos?... Pensamentos impuros, próprios de invasores, de traidores que violam templos sagrados, templos que fazem parte dos corações dos que nasceram, dos que ali chegaram e foram aceitos?
         E foi naquela mesma segunda-feira, quando me vi sozinho, já sem minha amada, não sei se por medo ou insegurança, tudo era diferente: presenciei um exército de trabalhadores que dirigiam-se aos seus lares; a seriedade nas suas faces parecia me dizer que sabiam o que eu tinha feito e pensado durante toda manhã. Eram olhares de censura, olhares inquisidores. Aqueles olhares sérios me assustaram e eu não mais me sentia um semideus como imaginara; me sentia mais sozinho, ainda mais assustado e pensei:
Talvez tenhamos exagerado em dizer que a cidade dormia, que a cidade estava deserta... com ausência de espíritos e princípios, que os nativos fossem omissos, indiferentes ou covardes. Que a Catedral da Sé fosse nossa... Nós é que tínhamos construído nosso mundo, em mundo alheio. Nós sim! Nós é que éramos invasores e tínhamos ficado indiferentes aos poucos pedestres que ao nosso lado passavam. Esquecemo-nos que aqueles poucos pedestres eram o suficiente para nos mostrar a nossa estupidez e controvérsias em relação a tais mesquinhos pensamentos. Aqueles pedestres que me olhavam sem nada dizer, por estarem muito apressados, pareciam ter feito complô de isolamento para eu, o invasor que, sem a mulher da minha vida, estava só naquela sombria tarde...
Se os nativos dormiam, era, na eventualidade, por estarem energizados para defender aquele paraíso de pedras que é seu mundo de fé, força e glória. Se pareciam indiferentes, era só na percepção dos invasores... que imaginavam ser donos daquele templo que é a cidade de São Paulo. Se não nos importunaram, era, simplesmente, porque queriam que fossemos felizes no seu lar, como convidados, e não desejavam destruir a nossa felicidade, destruir a felicidade dos que amam...
No silêncio, diziam que ficássemos à vontade, mas que estão sempre atentos no mundo que lhes pertence; que amam a terra que lhes deu  a própria vida e meios de subsistência.  E ainda me perguntei:
– Qual o motivo daquelas pessoas não estarem presentes durante a nossa investida na sua casa?
          E não foi necessário que eu ouvisse sons, mas, percebi nos mesmos olhares inquisidores tais respostas:
                   Se não estivemos presentes, foi por um simples motivo: para surpreender aos tolos que acreditam que a cidade dorme, mas, que na verdade, a cidade de São Paulo ESTÁ SEMPRE ALERTA!!!




Este trabalho está registrado na Biblioteca Nacional-RJ
carlos Carregoza
Enviado por carlos Carregoza em 22/11/2006
Código do texto: T298020
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Sobre o autor
carlos Carregoza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
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carlos Carregoza