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O Dia em que Marijoel foi Abduzido

Pobre é pródigo em “criatividade” na hora de dar nome a filho, faz uma combinação com os nomes dos pais, ou empurra-lhe um nome estrangeiro. No caso dos servidores públicos, Marilia e Joel, a escolha foi caprichada, juntaram as duas opções e batizaram seu rebento de: Marijoel Clayderman da Silva.

Não sei se era trauma por conta do nome, ou outra coisa qualquer; Marijoel era extremamente tímido, considerava-se muito feio, o complexo era tanto, que ele só olhava para o espelho de óculos escuros. Assim, ficava difícil arrumar uma namorada. Mas esse excesso de feiúra não era real e sua baixa estima é que estragava tudo. Nosso amigo era do tipo: “não era belo, mas mesmo assim, havia mil garotas afim...”. Só ele não percebia isso.

Nessa paranóia estética, a internet pareceu-lhe a solução, o “chat” seria a sua salvação. Todo dia estava ele lá em frente ao micro, “chatea” daqui “chatea” dali, quando um belo dia surge sua “cara-metade” virtual, logo trocaram a sala de bate-papo por um “messenger” e a coisa parecia caminhar para um namoro real. Ela se chamava Esterlanda Coniff, era profissional liberal e morava na mesma cidade do nosso problemático personagem. Ele não escondeu seu complexo mas omitiu a timidez, ela se mostrava inteligente, desinibida e dizia não preocupar-se com a beleza física, mas com o interior das pessoas.

Por sugestão dele; não trocaram telefones ou fotos. O rapaz dizia que quando fosse o momento certo, se conheceriam pessoalmente. Passadas duas semanas, ela achou que já era momento de se encontrarem de verdade, marcaram no shopping e ele não apareceu, inventou uma desculpa e adiou por mais dois dias o tal encontro, por mais duas vezes o fato se repetiu e a moça deu o ultimato: - Ou você aparece hoje, ou me esquece.

Aquele dia foi um terror para o sujeito, ele suava frio, só de olhar o relógio e como para todo paranóico, paranóia pouca é bobagem, Marijoel começou a viajar nas neuras: Será isso? Será aquilo? Esse negócio de profissional liberal... Será que ela é uma garota de programa? Será um travesti?..

Na verdade, seus fantasmas interiores, colocaram o homem em parafuso, o medo sufocava o sentimento e um e-mail lhe pareceu a saída: “Desculpe, acho que tudo foi uma ilusão, essa coisa de internet não dá certo mesmo. Guarde na lembrança as palavras bonitas que trocamos, faça de conta que fui abduzido, levado  para um planeta distante...”.

No dia seguinte, talvez devido a anciedade da véspera, o infeliz teve um pirepaque e foi parar na emergência. Medicado, por estar com pressão alta, ele foi colocado em observação. Passados 45 minutos, uma médica, belíssima mulher de cabelos castanhos claros e olhos de um verde raro, olhou firmemente nos olhos do paciente e sem dizer uma palavra sequer, o auscutou, aferiu sua pressão arterial e retirou-se. Em seguida, uma enfermeira informou a Marijoel, que os médicos já o tinham liberado e orientado que procurasse um clínico, para investigar melhor a causa do seu aumento de pressão.

Em casa, atormentado por seus dilemas existenciais, aquele torturado ser, deparou-se com uma mensagem eletrônica da sua agora ex-futura-namorada: “Aqui é a extraterrestre, que hoje assistiu sua abdução, não te achei nada feio, e ainda que o fosse, não deixaria de namora-lo por isso. Mas como você foi abduzido, as regras não permitem-me envolver com espécimes estudados, sobretudo os da raça: “idióticus humanus”. Adeus. Dra. Esterlanda Coniff.”.

Antonio Pereira (Apon)
http://www.aponarte.com.br
Antonio Pereira APON
Enviado por Antonio Pereira APON em 23/11/2006
Reeditado em 14/07/2010
Código do texto: T299086

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Sobre o autor
Antonio Pereira APON
Salvador - Bahia - Brasil, 52 anos
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Antonio Pereira APON