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Exames, diagnósticos, tortura?



É notório que a medicina está avançando, tanto no que se refere à descoberta da cura de determinadas doenças, quanto à utilização das novas tecnologias para execução de cirurgias, obtenção de resultados e diagnósticos. Entretanto, estas mesmas tecnologias parecem conspirar contra nós, pacientes, simples mortais, leigos, desacostumados a sermos manipulados como batatas em sacos de feira.
Quando se tem qualquer prognóstico de doença, como dor no estomago, problemas de coluna ou tosse incisiva, dispomos  de imediato, do maravilhoso leque de ferramentas que vão nos orientar (ou desorientar) ao diagnóstico de nossos males. O médico prescreve os exames clínicos solicitados e nos deixa à mercê de nosso destino, arremessados às mãos das clínicas especializadas.
Por exemplo, na queixa de problemas de estômago somos encaminhados ao simples exame de raio-x. Mas vejamos a situação absurda a que está fadado o paciente. Ao chegarmos, o atendente nos conduz a um vestíbulo na penumbra, onde pede (exige) que tiremos toda a roupa, (leia-se jóias,  brincos, pulseiras, relógios). Em fortes decibéis, grita: “Não esqueça a dentadura”, ao que afirmamos com voz inaudível  que não possuímos, ou se usamos, veladamente, nos livramos do estorvo. Depois, vestimos uma espécie de avental, aberto nas costas e aguardamos para sermos conduzidos até a sala fatídica, onde ocorre o delito. Ao chegar, já de cara, o funcionário entrega-nos um copo de líquido grosso, pastoso, leitoso, branco amarelado, gosto de nada e de pasta de dente.  Nisto, a luz se apaga e nas escuras, pede que nos deitemos, amarra-nos as pernas e as mãos, exige que juntemos as pernas e tomemos um gole do líquido, sem engolir e ao mesmo tempo respirando fundo. Quase instantaneamente, manda engolir o tal líquido, enquanto a máquina ronca forte, dando a impressão que desagrega engrenagens soltas e vai se desmontar toda sobre nossa cabeça. Prendendo em seguida a respiração. Inadvertidamente, e para a nossa  surpresa,  a cama de metal vira ao contrário, deixando-nos de pernas para o ar. Têm-se a sensação que vamos escapar pela cabeceira abaixo e estatelar no chão. Ouve-se de longe, quase do além, uma voz que grita; “Engole. Respira fundo. Não se mexa. Espere ai, talvez precisemos repetir o processo”.
No caso da tomografia dos seios da face, após conversas nervosas na sala de espera (e quanta espera!), se adentra num ambiente iluminado. Um tubo metálico nos espera e uma série de perguntas impertinentes ao lado. A voz quase sussurrante do entrevistador. O entrevistado trêmulo, omisso, pensamentos distantes, atormentado. Deita-se, espera a tortura. De imediato, a primeira frase: não pode se mexer. É o fim. Neste momento, todos os pensamentos incômodos vem à tona. Não se mexer é quase impossível, naquela situação desconfortante. Depois, um tampão para os ouvidos, uma faixa preta cingindo a cabeça, impedindo o movimento. Só os olhos assustados, as mãos trêmulas, o coração palpitante. Em seguida, em pequenas deslizadas, nosso corpo vai se inserindo no tubo, como se partisse para um lugar distante, desconhecido, assustador, acompanhado de uma música incidental, de filme de terror. Alguma coisa brilhante começa a girar rapidamente, e os olhos tonteiam. A mente confusa passeia por vielas desconhecidas, coração aos pulos, suor frio nas mãos, pernas dormentes. O tempo se arrasta. Cada vez mais, mergulhamos no tubo. Depois, a volta lenta e gradual, a certeza de que voltamos vivos e que jamais retornaremos para o vazio sinistro. Que nada! O homem volta à sala, pede que sentemos, ajusta uma espécie de suporte nas costas, semelhante a um lavatório de cabeleireiro, deixando a cabeça tombada, para trás. Dores nas costas, voz fraca, ofegante, pedido para sair. Mais uma vez empurrado para o tubo, mas desta vez, com a cabeça prostrada, combalida, imergindo cada vez mais no desconhecido. Uma espécie de aba de capacete desce até o peito, fechando o invólucro e os olhos procuram não ver o que o pensamento mostra. A dor intermitente nas costas, as luzes voltam a brilhar céleres, velozes, absurdas e o tempo não passa. Tudo para se saber se temos sinusite.
O leitor deve convir, que há muitos casos de tortura, cada qual com requisitos infinitos de crueldade. Lembram o caso da camisa de força, aquele exame antigo para descobrir se tínhamos cálculos nos rins? Todo amarrado numa maca, cintos de couro sendo apertados ao corpo, através de uma borboleta,  para ficarmos tão planos quanto a tábua e cada vez menores. Nem sadistas teriam tanta imaginação! Ou outro em que se bebe horrores de água para examinar a bexiga, transformando-a num balão aquático. Ou aquele em que jorram cântaros de soro em seus ouvidos para saber a que grau de intensidade se encontra a labirintite, labiritando ainda mais o seu cérebro, fazendo-o girar para um lado ou para o outro. Ou...
Existem milhares de modelos de tortura, dos quais qualquer regime ditatorial teria um fabuloso arsenal de instrumentos para arregimentar os seus exércitos. Bastava que tal como ocorre nas clínicas de laboratório, os ditadores se recusassem a esclarecer os passos que levam aos procedimentos. Assim, o sujeito vivenciando cada etapa, sem saber qual é a etapa seguinte, descobrisse tarde demais que esse medo do desconhecido é mais fatal do que a doença. E o funcionário todo poderoso, acreditasse realmente que era o comandante.
Ai de nós!



Gilson Borges Corrêa
Enviado por Gilson Borges Corrêa em 23/11/2006
Código do texto: T299649
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Sobre o autor
Gilson Borges Corrêa
Rio Grande - Rio Grande do Sul - Brasil
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Gilson Borges Corrêa