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Em dia de sábado

Realmente, cada um tem seu dia da maçã, no seu próprio baú de lembranças. O do meu irmão mais novo é no dia de Finados. O meu era semanal. Todos os sábados.
Cedinho, vinha aquele senhor de cabelos brancos, de idade indefinida, porque eu ainda era muito criança para poder avaliar esse tipo de coisas. Só lembro dos cabelos brancos.
Vinha com um balaio de vime, ou algo semelhante, com guloseimas variadas. Mas, o q eu lembro distintamente, eram os gibis e as maçãs. Dos gibis, lembro das “Aventuras do Tucha”. Era uma revista de quadrinhos diferente. Parecia um talão de rifa. Tinha a largura normal, mas era curtinha. Não devia ter mais de 10cm de comprimento.
Meu irmão mais velho vendia jornais aos domingos. Correio do Povo e creio que Folha da Tarde. Lembro do chamado: Coreiiiiiiii... Folhé...... Saía ainda escuro, vendia sua cota, depois voltava e íamos à missa. Tomávamos nosso café, somente depois. Ele devia ter 10 anos, nessa época. Com os trocadinhos que juntava, comprava “As aventuras do Tucha”. Tinha coleção. O resto do dinheirinho dava para nossa mãe.
As maçãs eram as mesmas das lembranças de meu irmão.Vermelhas, cheirosas, enroladas no papel roxo, Manzanas de Argentina. Eu nem sabia ler ainda, imagina. Nem falava “brasileiro”. Mas o papel não mudou, através desse tempo todo. Meus dois irmãos mais novos ainda não eram nascidos.
Eu me espichava para cheirar as maçãs e ver o que mais havia naquele cesto. O vendedor cobria-o com uma toalha branca de algodão. Talvez fosse um pano de prato.
Aí meu pai escolhia uma das maçãs, criteriosamente. Seria nossa sobremesa. Eram lindas. Ele as polia para que ficassem brilhantes, como os móveis que ele fazia. Na hora de comê-las, ficavam todos em torno dele, geralmente sentados no pátio de casa. Nossa mãe, ele, eu e meus dois irmãos mais velhos. Era maravilhoso. Ele cortava em fatias exatamente iguais, uma para cada um de nós. A da mãe era um pouco maior. Ela merecia. Comíamos lentamente, porque a próxima, seria servida somente no sábado seguinte.
Um dia contei essa historinha no meu trabalho. Colegas falavam de apertos financeiros. Uma delas surpresa, perguntou porque meu pai comprava somente uma maçã, se éramos cinco pessoas. Perguntei a ela, se ela sabia o que é aperto financeiro. Uma pessoa que não entende o que é fazer a comida ser suficiente para servir um pouco à cada um, ainda não chegou a perceber o que é passar por dificuldades.
Nada disso nos tornou amargos, pelo contrário. Quando nos reunimos, irmãos, cunhadas, sobrinhos, netos, a alegria é sempre a mesma. Somos felizes por sermos exatamente esta família. (03/11/06)

Vitoria Lerinha Haubert
Enviado por Vitoria Lerinha Haubert em 25/11/2006
Código do texto: T300901

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Sobre a autora
Vitoria Lerinha Haubert
Sapiranga - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
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Vitoria Lerinha Haubert