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Em dias de chuva

Chove desde ontem. Isso me transportou à infância, mais uma vez. À casa, ao barulho da chuva no telhado, às latas espalhadas aqui e ali, onde pingava a água das goteiras, que as havia muitas, espalhadas também, pelo telhado.
Desde que comecei a remexer meu baú de lembranças, elas estão vindo à tona torrencialmente, como a chuva.
Enquanto nossa mãe costurava as cobertas que meu irmão mais velho levaria à fábrica na manhã seguinte, antes de ir para a escola, nós brincávamos com nossos carrinhos e móveis feitos com caixas de fósforos e carretéis de linha vazios. Desses, havia alguns bem grandes, acho que de linha número 10, ou coisa assim, que a mãe usava para costurar as cobertas. Eram os rodados dos caminhões.
As caixas de fósforo transformavam-se em tudo que nossa imaginação quisesse. Cadeiras, poltronas, armários, carrocerias de caminhões. Os carretéis menores eram muitas vezes, a carga. Que também podia ser de qualquer coisa, combinada de antemão entre meus dois irmãos mais velhos. Ainda éramos somente nós três. Eu geralmente, só acompanhava e atrapalhava suas evoluções por dentro de casa. Tinha, nessa época, em torno de cinco anos.
Nossa casa, humilde, de tábuas largas, com muito nós, já bastante antiga naquela época, o soalho também de tábuas comuns e largas, com grandes frestas entre uma e outra, era aconchegante, apesar do frio que entrava por elas.Num dos cantos da cozinha, o fogão à lenha enorme,  nos aquecia.
Não havia água encanada. Lembro do balde de madeira pintado de verde, sobre um banquinho, também verde, que ficava entre o fogão e a pequena mesa, sobre a qual a mãe preparava as refeições e lavava as louças. Era tudo pintado de verde.
Provavelmente sobrara tinta da pintura das janelas, pintadas de verde, e toda mobília da cozinha, guarda-louças, cadeiras, a grande mesa das refeições, o banco que ficava atrás dela, encostado à parede, recebeu a mesma cor. Economia.
Naquelas tardes chuvosas, enfileirávamos as cadeiras e brincávamos de trem, que era o meio de transporte que costumávamos usar, nos raros passeios que fazíamos a Novo Hamburgo. Eu sempre era a passageira. Meus dois irmãos tiravam a sorte para saber qual deles seria o maquinista e quem seria o bilheteiro.
Quando trovejava, nossa mãe queimava palma benta, trazida da igreja no Domingo de Ramos.
À noite, quando nosso pai chegava da serraria, coberto de serragem, nossa mãe já nos arrumara para dormir. Depois de se lavar, meu pai trocava a roupa de trabalhar, pela roupa “de casa”, depois todos nos sentávamos em torno do fogão, eles, os pais, conversavam sobre o dia, enquanto tomavam o chimarrão da noite.
Não havia luz elétrica. Um lampião à querosene pendurado na parede atrás do fogão, nos iluminava parcamente. Durante as refeições, ele ficava pendurado na parede por trás da mesa. As lembranças noturnas surgem como envolvidas em penumbra.
Aí, nossa mãe fazia o café. Coado num enorme bule azul. E ela colocava o leite junto com o café, para que ninguém pudesse reclamar ter recebido menos. O pão preto era feito por ela. Comíamos com manteiga e schmier. A casquinha do pão era disputada entre meu pai e eu. Mas ele sempre tinha preferência em tudo. A manteiga era legítima, sem adições, nem conservantes, vinda direto da leiteria. No verão, era colocada com o pote, dentro de uma tigela de barro com água, para não derreter.
Como o leite também vinha da leiteria, vinha integral mesmo e criava uma crosta densa de nata que a mãe retirava e nós passávamos sobre o pão com schmier comum, feita de cana. E claro, acompanhava nosso café, a lingüiça feita em casa.
Assim que terminávamos, nos preparávamos para dormir. Nosso pai verificava todas as janelas, as portas dos fundos e da frente, que raramente era usada, olhava debaixo das camas e então ele e nossa mãe se despediam de nós, não antes de rezarmos o Santo Anjo do Senhor. Dormíamos nós três, no mesmo quarto.
Levando o lampião e o urinol, mãe e pai se recolhiam ao seu quarto. Faziam suas orações, agradecendo pelo dia, pelo trabalho, pela família, o pai assoprava o lampião e tudo ficava em silêncio e em completa escuridão.
A chuva continuava batendo nas paredes finas e um raio de vez em quando, riscava a escuridão, assustando-nos.
Nós nos encolhíamos e entregávamos nossos sonhos aos anjinhos, esperando a chegada do novo dia.(171106)
Vitoria Lerinha Haubert
Enviado por Vitoria Lerinha Haubert em 25/11/2006
Código do texto: T300903

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Sobre a autora
Vitoria Lerinha Haubert
Sapiranga - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
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Vitoria Lerinha Haubert