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Tinha sete anos quando fui à escola, pela primeira vez. Não falava “brasileiro”. Era uma Silva que só falava alemão. Mas, conhecia os números e boa parte do alfabeto. Acho que ouvia as lições dos irmãos mais velhos. Minha mãe ensinava as letras do alfabeto, em alemão.
Ficava irritada quando a professora insistia em falar as letras conforme ela imaginava ser sua pronúncia: ba, dã, fff, nnn, mmm, pã, pã. Eu, tão novinha, tão esperta, sabia que o nome das letras era be,ce, de, efe, vê, assim por diante. Só não sabia falar, ler nem escrever coisa alguma naquela língua tão estranha, chamada por nós de brasileiro.
Minha companheira de escola, foi minha prima, minha única amiga. Eu era um tanto tímida, bastante observadora, já naquela época. Ela, metida a sabichona, espevitada. Eu ficava quietinha, atenta ao modo como os outros alunos procediam, assim aprendi a pedir licença para “ir à casinha”. Mais tarde, meus irmãos ensinaram que devia dizer banheiro.
Lá pela metade do ano, nos mudamos para Ibirubá, longe pra caramba. Não conhecíamos ninguém lá. Meu pai aceitara emprego numa serraria que trazia as toras de madeira para serem beneficiadas na serraria onde meu pai trabalhava, e depois elas eram levadas de volta para lá.
Sua função foi a de implantar e ensinar aos funcionários da serraria de lá, as técnicas de manufaturação das toras, usadas aqui, acabando assim, com as longas viagens de ida e volta que encareciam os produtos.
Embora os moradores da cidade também fossem de origem alemã, nós não fomos recebidos com banda de música. O preconceito era velado, mas perceptível em cada sorrisinho condescendente. Nosso alemão era o “ platdeutsch” um dialeto Hunsrick, enquanto  eles falavam o “Hochdeutsch”, alemão gramatical. Assim pensavam, pois descobri, com o tempo, que eles também falavam um dialeto da  região da Alemanha de onde vieram seus ancestrais.
Imaginem, nos idos de 1953, um Silva que falava um português todo atrapalhado, cuja esposa só falava alemão (plat), com quatro filhos e, pouco tempo depois, o 5° a caminho, querendo ensinar alguma coisa. Mas, a competência conquista  espaço.
Antes de completar um ano da nossa ida para lá, a empresa já fora ampliada e fabricava tudo que antes vinham comprar aqui. Cabos para instrumentos agrícolas, os mais diversos. Mas, o que sempre foi o orgulho do meu pai, eram os “assentos de patente”, lustrados com laca e verniz, até se transformarem em verdadeiros espelhos.
O cheiro da laca, do verniz, dos solventes, o pó da madeira, (naquela época não existiam exaustores dentro das empresas, e o uso de máscaras, não era exigido), somados ao cigarro, proporcionou-lhe um enfisema pulmonar.
Em Ibirubá, meus dois irmãos mais velhos e eu, voltamos à escola. O mais velho, ao 5° ano, o outro ao 4° e eu, ao primeiro. O prédio da escola era assustador. As salas tinham buracos enormes no soalho. A última e maior das salas, estava interditada. O mato tomara conta, pois o soalho sumira. Antes dos alunos entrarem para as salas, alguém verificava se não havia cobras por baixo das classes.
A secretaria era minúscula. Não cabia ninguém além da diretora. Eu costumava ficar sentada lá, durante o recreio, quietinha, pois não conhecia ninguém.
Meus irmãos passaram de ano. O mais velho começou a trabalhar com meu pai, aprendendo sua profissão de lustrador. E aprendeu bem, embora depois tenha passado para a indústria do calçado, já de volta à nossa cidade.
O segundo e eu, que rodara, trocamos de escola. Passamos a freqüentar o colégio das freiras, de cujo nome não lembro. Lá, fiz uma amiga, com a qual mantive correspondência por mais de 10 anos. Eu já havia casado quando perdemos o contato. Na última carta que recebi dela, dizia que ia casar e morar em outra cidade.
Eu detestava cordialmente a freira que foi minha professora. Debochava abertamente de mim, do meu sotaque, das minhas roupas. O uniforme era um jaleco de algodão de um verde esquisito. Nós não tínhamos dinheiro para comprar. Então, minha mãe, sempre criativa e econômica, tingiu um tecido de sacos de açúcar e fez meu avental e o jaleco de meu irmão. Ficou igual aos dos demais alunos, só o verde ficou mais bonito.
No dia em que o estreei orgulhosamente, a freira parou-se ao lado da minha classe e ficou tocando o tecido ostensivamente, fez um ar de falsa curiosidade e perguntou se o tecido era tingido ou pintado. Eu não sabia o que era “tingido”, então respondi que era pintado. Ela e a classe toda caíram na risada. Minha amiga, sentada ao meu lado, não riu.
Mas, algum tempo depois, tive a prova de que não deveria me sentir culpada por detestá-la. Ela me disse com todas letras bem escolhidas, que não gostava de mim. Tinha no olhar, uma raiva contida. Acrescentou que, no entanto, gostava de meu irmão e que eu devia me sentir honrada em carregar a mochila dele, quando ele assim o exigisse.
Não lembro de ter me sentido humilhada, nem por isso, nem pelo deboche. Estava com 8 anos, me preparando para minha 1ª comunhão, um tanto beata. Pensava em como uma freira podia ser assim. Imaginava que elas eram santas pessoas, noivas de Jesus, como elas falavam. Usavam até alianças, e eu levava isso muito a sério.
Passamos de ano. Meu irmão terminou o primário e eu passei para o 2° ano. Em fevereiro voltamos para cá. Com mais um membro na família. Agora éramos cinco filhos.
Eu aprendera a falar um português mais correto e aqui, não voltei para a escola que freqüentara antes. Entrei para o Colégio “das freiras”. Minha prima também não continuara na escola pública.
Embora já não convivêssemos diariamente, como antes e tivéssemos formado um novo círculo de amigos, nossa amizade continuou como antes. Trocávamos confidências e mentiras.
Naqueles 2 anos, desde meu ingresso na escola, até o retorno para nossa cidade, vivemos uma pequena epopéia, para aquela época. Não havia estradas asfaltadas, nem pontes. No trajeto, atravessamos vários rios em barcas de madeira, bastante precárias. Eu me escondia debaixo de uma coberta, em cima do caminhão da mudança. O mesmo que antes carregava as toras de madeira.
Nossa viagem de ida, durou mais de um dia. Na primeira noite lá, dormimos todos juntos, no chão da sala, sobre os colchões de palha. Na segunda noite, eu chorei de saudade, disfarçada sob a desculpa de dor de dentes. E meus irmãos choraram comigo. No dia seguinte, riram de mim, provavelmente envergonhados pela “fraqueza”. A casa era enorme e ficava no alto de um campo, no fim da rua de barro vermelho, sem tampões nas janelas. Somente as vidraças e toda nossa intimidade estava exposta.
Aqueles 18 meses significaram muito para todos nós. Mais que nunca aprendemos o valor da família, de poder contar com vizinhos amigos.
Do alto dos meus oito anos, não entendia nada de finanças, mas um dia, meu pai percebeu que nós sofríamos e que se conseguira um salário melhor, até porque não pagávamos aluguel, isso não compensava o sorriso feliz de nossa mãe, quando reviu seus pais e irmãos, que nos receberam de volta, também não com banda de música, mas com o coração em festa.

Vitoria Lerinha Haubert
Enviado por Vitoria Lerinha Haubert em 25/11/2006
Reeditado em 25/11/2006
Código do texto: T300963

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Sobre a autora
Vitoria Lerinha Haubert
Sapiranga - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
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Vitoria Lerinha Haubert