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NÃO ME CONFUNDAM

          Há alguns dias, não muitos, recebi um e-mail de uma leitora com quem já estabeleci um vínculo que, não vou chamar de amizade, mas quase isso. Não há nada de pouco usual nas palavras dela, até porque o tipo de colocação feito no e-mail já é algo que ouvi diversas vezes. O que me leva a esta tentativa de crônica não é necessariamente o que foi dito por ela, mas o fato de que isto já aconteceu inúmeras vezes. 

          A esta querida e assídua leitora com quem converso por vezes, creio ter feito algum esclarecimento sobre a questão. Entretanto, me parece relevante estender o mesmo esclarecimento a todos os demais. Alguém poderá até discordar, mas, por favor, quando lerem algo tenham o cuidado de não confundir quem escreve e sua experiência de vida, suas vivências com o que foi escrito. 

          É certo e quase indiscutível que, ao escrevermos, colocamos muito de nossa alma ali. Mas, a história por detrás das letras não é necessariamente a nossa. Ouvimos histórias alheias, assistimos a vida alheia e, obviamente, transpomos aquilo do jeito que vemos. A nossa vida, a vida da pessoa, não a do que faz uma tentativa de escritor, como eu, não é necessariamente o que está ali. A minha vida não passou necessariamente pelas experiências que relato do meu jeito. Posso até externar, implícita ou explicitamente, o meu modo de enxergar, as minhas opiniões através da minha maneira de dizer. De qualquer forma, presumir que eu sou aquilo que escrevi, mesmo que use a primeira pessoa do singular, é um erro, diria quase um exagero. 

          No máximo, o que fazemos é encontrar um jeito próprio de escrever as dores e alegrias que, nem sempre, são as nossas. Confundir o autor com a pessoa é, no mínimo, confundir o cara que vende doces com aquele que os fez. Nunca será a mesma coisa.
Na melhor das hipóteses, ao fazer isso, você vai amar alguém que não existe, a não ser na sua leitura das coisas. E, na pior, vai odiar alguém que não tem, nem de longe, a pretensão de ferir ou criticar. 

          Se isto se faz apenas pela leitura de um texto, o que dizer da vida real? Você julga o que vê com os óculos que usa. Mas jamais saberá o que move alguém a isto ou aquilo. Você julga a pessoa pelo que ela fala e julga pelo que ela silencia. Se tem alguém com uma boa resposta pra isso, é um homem – na minha opinião, um gênio – chamado Jesus ( perdoem-me os ateus e assemelhados) , que instado a decidir sobre a divisão de bens entre dois irmãos, apenas perguntou: “Quem me fez juiz das coisas do mundo?”. E, continuando com ele, o máximo que posso dizer é que tenham cuidado com os julgamentos. Ninguém tem a posse da verdade absoluta. Ninguém pode julgar sem carregar consigo a dívida de depois ser julgado. E o pior: com a mesma condescendência ou com o mesmo rigor com que julgou os demais. 

          Pra encerrar, de mim mesma: não me confundam com minhas letras. Não joguem este peso sobre mim. Eu tenho meu próprio peso para levar. E, convenhamos, é bastante. Pelo menos, nesta vida.

Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 25/11/2006
Código do texto: T301048

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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