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Chuveiro de lata

Nesses dias de calor intenso que tem feito nos últimos dias, relembro, quando fico sob a água escorrendo, refrescando, lavando o suor e o pó, o chuveiro de lata com cordinha.
Não havia água encanada, nem energia elétrica, na casa em que morávamos, lá na longínqua infância. Havia uma peça, nos fundos, com piso de tijolos, com uma parte da parede que não chegava até o chão, por onde escorria a água. Também não havia esgoto. A água do banho escorria para o pátio, onde era absorvida pela terra. Lá no fundo do terreno, ficava a “casinha”.
O chuveiro era de lata, maior que de querosene, aberta em cima e com uma ducha acoplada, em baixo.Por dentro, havia uma tampa, como de pia, amarrada a uma espécie de alavanca de arame grosso, por sua vez preso a uma cordinha que puxada, erguia a tampinha e fazia jorrar a água pela ducha. Embora não saiba como descrever com exatidão, está bem nítido nas minhas lembranças.
Esquentávamos água sobre o fogão à lenha e misturávamos com água fria, até estar na temperatura desejada. Como essa operação levava tempo e como manter fogo no fogão à lenha não era agradável no verão, a medida de água para cada pessoa tinha que ser respeitada.
No verão, o intervalo entre uma duchada e outra, não era problema. No inverno que complicava. O frio penetrava pelas frestas da parede de madeira e pela parte aberta, junto ao piso. Puxa a corda, molha o corpo sem exagerar, p água não acabar antes do banho, ensaboa, treme de frio, rápido para a água não esfriar. Puxa a corda, tira o sabão. Acabou a água. Não dá para pegar mais, porque tem mais gente querendo tomar seu banho. Dá para entender porque o banho nem sempre era diário?
Na casa em que fomos morar quando voltamos de Ibirubá, tínhamos luz elétrica, mas não água encanada. Na cidade não havia abastecimento público. Todas as casas tinham poços. Muitas não tinham nem bombas manuais. Puxavam com cordas amarradas à manivela.
Um vizinho fazia bombas de madeira. Ao invés de canos, usava taquaras, por onde a água subia até a torneira da bomba. Bastante engenhoso, mas o cheiro e o gosto da água eram horríveis, por um longo tempo. Às vezes, as taquaras apodreciam e o sistema não dava certo. Voltamos à corda amarrada no balde.
Quando casei, na casa em que fomos morar, havia água encanada, banheiro dentro de casa, uma enorme banheira de louça, que nunca chegamos a usar. Tínhamos só fogão à lenha e demoraria demais, para esquentar água suficiente para enchê-la.
Mandamos vir da capital, um chuveiro elétrico Lorenzetti. Poderoso. Não sei se não havia à venda na cidade, mas quem o trouxe, foi um conhecido que trabalhava no transporte de mercadorias. Água encanada, chuveiro elétrico, vaso sanitário, tudo dentro de casa, sem frestas, nem buracos para a água escoar, era o máximo do luxo.
Quatro anos depois, compramos a casa de meu sogro, que falecera recentemente. E, para minha decepção e tristeza, voltamos ao chuveiro de lata com cordinha, ao frio que penetrava pelas frestas e pelo buraco na parede, rente ao chão. Não havia nem bomba manual para puxar água.
Mas, isso durou somente alguns meses, porque conhecer algo bom, nos faz desejar continuar com ela. Demolimos o galpão que servia de depósito e casa de banho e construímos um banheiro de verdade, com pia, vaso e CHUVEIRO!


Vitoria Lerinha Haubert
Enviado por Vitoria Lerinha Haubert em 26/11/2006
Código do texto: T301508

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Sobre a autora
Vitoria Lerinha Haubert
Sapiranga - Rio Grande do Sul - Brasil, 71 anos
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Vitoria Lerinha Haubert