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"DESCONHEÇO O HOMEM, CONHEÇO O CÃO"


Meu sonho era muito simples, nada de coisas mirabolantes. Sonhava com um amanhecer liiindo no meu sitio, com os primeiros raios do sol penetrando pelas frestas das matas clareando meu rosto, e com o cantar das passaradas alegres nas copas das arvores anunciando um novo dia. Sonhava com os quero-quero, as pombas rola, os anus preto, os téjos, as galinhas d`agua, as codornas os inhambus, os bem-te- vis....Sonhava com a relinchar  do jegue, o uivado dos cachorros , o bramir das vacas, o cocoricó das galinhas no terreiro e com o grunhir dos porcos no chiqueiro como que me dizendo: Apresse a comida!
Sonhava nadando num lago de águas cristalinas junto com vários patinhos e marrecos multicoloridos brincando de mergulhar. Sonhava com as conversas fiadas das vizinhas e com a Zinhá cantarolando enquanto buscava sorridente na cestinha, os ovos da ródia..
Sonhava com o cheiro do café sendo torrado  e quentinho encorpado , posto à mesa, acompanhado do leite tirado na hora ;sonhava com uma comidinha mineira cozinhada  num fogão de lenha, com o pão de queijo crocante , a broa, os doces variados e com a manteiga amareliiinha feita com o saboroso leite de uma vaquinha criada no mais puro amor. Para realizar este meu sonho, eu sonhava com um ajudante, mais um ajudante especial ,que cuidasse com esmero das "nossas" coisas, que o mesmo fosse amigo, humilde, que amasse  loucamente o trabalho,honesto,temente a Deus,que tivesse quase os mesmos gostos que os meus,que fosse amante da natureza,que amasse  meus bichos,minhas plantas, minhas frutas e que soubesse valorizar até uma folha caída, ou simplesmente um pedaço de pau podre.
Que odiasse o desperdício, e se contentasse em morar numa casinha simples ,mas bem cuidada, rodeada de plantas e beija flores; que aceitasse mesmo que por um instante ,um salário ínfimo dentro das minhas possibilidades,mas oferecido de coração.Que a tardinha sentássemos num  tamborete feito por "nos", onde pudéssemos apreciar o declinar do sol majestoso, enquanto contávamos prosas intermináveis.
Acreditava que  a maioria das pessoas não era incentivadas pelo amor,bem por isto não existia um relacionamento estreito entre patrão e empregado, e desejava mudar esta pagina manchada da historia. Este amor, esta palavra inefável , era a chave do meu sucesso e da minha felicidade. Acreditava que amando desta forma meu ajudante, não seria difícil realizar meu sonho ,pois igualando-me a ele, eu certamente teria um grande amigo, logo, compartilharíamos nossas alegrias,nossos segredos, nossas dores, e se a morte um dia nos separasse..., um regaria com lagrimas  as plantas no túmulo do outro. Sonhava com uma "só" mesa ,onde nossos filhos pudessem deliciarem com a fartura produzida por "nos". Jamais aceitaria que meu estomago estivesse cheio, enquanto o do meu ajudante estivesse vazio.Acreditava  que o segredo da felicidade ,estava em estender as mãos, chorar com os que choram, sorrir, dividir o pão; acreditava que usando destes meios, jamais eu teria inimigos, até porque quase ninguém faz isto.Acreditando nos meus ajudantes, me deliciava quando ouvia deles que minha terra era farta, que minha horta seria a melhor, e que minha bondade me apontava como o melhor patrão.
Jamais sonhava com desilusão, dias turvos,e no meu pensamento não existia espaço para a palavra traição.Sonhava com um mundo festivo,harmonioso e que este meu mundo dependia exclusivamente e tão somente das  minhas atitudes e de como tratar o ser humano.
Acreditava que a forma mágica para mudar o rumo de uma pessoa ,estava relacionada na magia do  amor, e onde existisse este amor, não haveria maldades, e imbuído nesta ilusão , eu continuava sonhando.O futuro para mim era o hoje, e estas duas palavras o “ho” e o “ je” somente se completariam sendo nos: eu e meus ajudantes.
Deste sonho ,eu me recusava acordar ,mas não demorou muito para que meu sonho se tornasse em pesadelo.
Meu amor oferecido, foi sistematicamente trocado pelo desgosto,pela inveja e pela ganância dos meus ajudantes.Tentei reaver meus ideais,mas meu amor estava aprofundado  de uma forma doentia, e jamais eu sabia e nem aceitaria troca-lo por vingança.Meus ajudantes eram sempre os mesmos, por mais que eu os escolhia tentando peneira-los, parecia que somente mudavam de rosto,e a balança que deve ser justa ,somente pendia para  prejuízos  meus; somente na minha terra nada mais brotava, somente minhas galinhas  não mais botavam e “sumisticamente”morriam, somente meus porcos adoeciam ,somente minhas plantas secavam, somente minhas frutas bichavam e somente eu tinha que  pagar, e nada de bom a receber.
Mesmo assim ,demorei para acordar do sonho . Aqueles que comiam no meu prato, a quem eu tanto confiava e os amava, destruíram meu sono,aniquilaram minhas forças,destruíram minhas plantas, roubaram meus bichos,turvaram meu sol, desgraçaram meu sonho ,tirando proveito para seus ventres e ainda usando a minha inocência, mascararam minha confiança. Usaram a  injustiça discaradamente chamando-a de justiça, para pesarem na balança da covardia ,seus pervertidos direitos.Hoje estou entre a cruz e a lança, pois enquanto minha essência pende para a solidariedade, minha outra metade repugna até de mim. Não mais consigo encarar as pessoas,  muitas vezes invejo os animais, e custa-me acreditar que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus.Me causa desconforto quando alguém se aproxima de mim com ar pedinte,pois muitas vezes camuflado sob o manto da simplicidade, esconde a verdadeira face do incompetente para praticar o bem,e do destruidor de sonhos.
Como destruidores que são, não se envergonham dos seus atos inescrupulosos , pelo contrario,  os usam como ferramentas afiadíssimas para dilacerar as mãos que os auxiliam.
Não mais sonho a falsa realidade, uso a razão; embora com muita saudade,não mais respiro o ar fresco da relva ,meus olhos cegaram para a beleza das montanhas,dos rios e dos raios solares deste meu pais; não mais escuto o bramir das  vacas e das ovelhas, o cocoricó das galhinhas, o grunhir dos porcos e custa-me até distinguir o cantar de um bem-te-vi. Nunca mais senti o cheiro do café sendo torrado,e jamais ouvi o cantar de uma seriema. Enquanto a cidade grande me consome aos  pouco, procuro respostas em meus sentimentos a respeito do caráter dos destruidores do meu sonho e, do meu cão sem raça definida:
Enquanto meus ajudantes demonstrando solicitudes ,  observavam o que eu comia, o que vestia, o que calçava, o que eu comprava, analisando desta forma meu potencial financeiro para tirarem proveitos, meu cão jamais aproximou-se de mim com hipocrisia. Porque ele nunca me estranhou , e sempre me reconheceu mesmo que eu aproximasse dele com  carro diferente, outra roupa, ou até mesmo com uma carrancuda face? Porque, se eu atarefado em ajudar meus ajudantes, inúmeras vezes neguei-lhe afagos , ração ou deixei de lhe oferecer água fresquinha,ele nunca mudou seu comportamento ? Porque, se eu não lhe dando a mínima atenção, ele jamais mostrou- se descontente comigo?
Ainda estou acordando do sono, mais estou convencido de que o amor não se adapta a qualquer um.
 
                                                                                                                                                                       Roosevelt

Roosevelt Luiz de Souza Souza
Enviado por Roosevelt Luiz de Souza Souza em 26/11/2006
Código do texto: T301833

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Sobre o autor
Roosevelt Luiz de Souza Souza
Osasco - São Paulo - Brasil
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