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Rei



Rosa Pena



Ele tem cheiro de vida atrevida, por mais que o câncer teime em tirar-lhe este tempero. Ele apronta até com a sirigaita da morte, e ela não tem se dado nada bem. Bebe, ri, e namora sem hora. Tem mais de quarenta, maduro que não ficou podre, visto que se casou com outra com menos vinte na idade, mas com mais trinta na maneira de ver a vida. Ela não acompanhou o ritmo do play, tava no tempo do videocassete, ele no DVD. 

Descasou entre uma quimioterapia e outra. A cerva e a Billie Holiday foram a terapia pra solidão momentânea, e pra conservar aquela barriguinha safada, que lhe dá o ar de maioridade quebrando o clima de menor abandonado. Homens carinhosos possuem este olhar quando estão descasados. Ta nem aí para calvície, muito menos pra aquelas rugas em volta dos olhos.
 
Bendito livre-arbítrio que alguns têm, de dar uma a gargalhada alta, de rir do nada, ou rir de tudo, sem se incomodar com o que outros vão pensar. Bendito dom, dom mesmo, de fazer cada mulher se sentir a mais extraordinária do mundo, cada amigo o mais especial do universo. Ele passarim enquanto os outros passam por aqui.Passarim do Jobim. Não eleva o Tom de voz, não toma ar professoral de quem sabe tudo da vida, ao contrário, faz cara de quem tem muito ainda à aprender, até quando cita um Nietzsche e o companheiro de copo pergunta se é atacante polonês comprado pelo Real Madri. Sabe que com mulher não se discute o pênalti que não valeu. Fala do Romeu, não o Tuma, mas o da Julieta , e abre um sorriso largo mesmo quando o papo é careta, ou o passante ta de mutreta com ele.
 
Escuta todos com atenção, sabe escolher o vinho, mas aceita sua sugestão como se fosse a grande opção. Aprendeu a cozinhar e cozinha com prazer pros os amigos; eta churrasco bom! Fala sacanagem como se recitasse Drummond, diz com naturalidade grandes mentiras ou cruéis verdades. Gosta de jazz (guarda todos os bolachões relíquias), ópera, rock, samba, chorinho, dependendo da ocasião, mas se alguém quiser sertanejo não cria um climão. Dança junto. Não briga com a nova geração, não a responsabiliza por não ter vivido os alucinantes "enta". Isso é pra quem se aposenta! Deve ter experimentado drogas, mas nem cigarro hoje fuma, usuário por vezes de morfina, para curar a sua dor, e ter espaço no rosto para um sorriso encobrir qualquer espasmo de dor. Simplesmente aprendeu a saborear a vida, sem correr como ela fosse refeição comida no intervalo do trabalho, devorada sem gosto, apenas desgosto. Dela ainda está no tira-gosto. Existência vai até os noventa, ou até quando a gente agüenta com um sorriso? 

Me abraça com catéter e com caráter. Amigo que conheci na metade da vida, que me ensinou a revê-la sem fechar a conta antes do tempo. Refaço minha biografia.
- Mais um chope e aumenta o som. Tá cedo pra dormir, vamos jobiniar pelaí!




junho de 2005/ para meu amigo real Reynaldo Vieira Motta.
Rosa Pena
Enviado por Rosa Pena em 02/07/2005
Reeditado em 20/09/2008
Código do texto: T30254
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Rosa Pena
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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