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UM PAÍS DAS ANDORINHAS(Ou Um Mundo Imaginário?)




 O barco, que mais parecia um cisne branco, zingrava há dez dias as águas do Oceano Atlântico com destino a Mônaco, a fim de representar o Brasil na 7ª Conferência Internacional de Hidrografia, pois a sede de tal entidade fica naquele país. Vários dias de mar, e os marinheiros nem mesmo sabiam quando chegariam ao Estreito de Gibraltar, território inglês ao sul da Espanha. As ondas que surgiam à sua frente eram violentamente vencidas pela proa da embarcação, fazendo com que as escumas fossem lançadas ao longe, tornando, assim, uma bela e fascinante paisagem. Mas mesmo bela, a paisagem não era suficiente para reduzir a saudade de filhos, esposas e amigos que tinham ficado no Brasil. A tristeza era a companheira daqueles navegadores e fazia com que seus dias parecessem intermináveis e o mar infinito. As esperanças daqueles homens pareciam que a cada dia iam se dissipando em cada pôr–do–sol, em cada entardecer, fazendo com que as suas almas estivessem a desprender-se dos seus corpos, movidas pela saudade que os corroíam.
           Se antes a euforia tinha tomado conta daqueles aventureiros que sonhavam em conhecer as longínquas terras, depois, passados vários dias sem mesmo avistar as terras tão sonhadas, cada elemento da guarnição sentia-se amargurado, entediado e o navio, que era pequeno, a cada dia parecia diminuir mais e mais o seu espaço geométrico.
 Em cada pôr–do–sol, com a aproximação da negritude que assumia o infinito, suas esperanças iam juntas levando os seus sonhos e devolvendo-lhes decepção; o tédio era constante e parecia que aquele ano de 1966 seria o último ano de suas existências. Não que tivesse algo escrito ou tivessem sentido alguma premonição. Mas aqueles homens, em suas individualidades, estavam sofrendo atribulações; não do mar, pois, o mesmo estava calmo; as atribulações eram as piores que podem sofrer os seres humanos... O conflito que destrói a si próprio, o conflito interior e entre eles não mais havia diálogo; a decepção aflorava em seus olhos e pareciam enlouquecer dentro do seu próprio e mesquinho mundo. O que estavam fazendo longe dos seus familiares? Porquê aquelas terras, aquele tão sonhado porto não surgia?! – Eram perguntas sem respostas.
           Os relógios, pareciam paralisados no tempo e as horas pareciam não passar. A ansiedade se fazia presente e seus nervos estavam à flor da pele. Ouvia-se, simplesmente, o barulho das máquinas que giravam os eixos das hélices a impulsionarem o barco; o silêncio se fazia presente em cada homem. Além do barulho das máquinas, restava o silêncio do vazio, da distância que afastava os homens do seu próximo; era um silêncio mais frio que gelo e que dava espaço ao nervosismo.
O silêncio dos homens só foi quebrado por um estridente grito que vinha do pequeno convés. Não um grito de desespero, de socorro ou mesmo um grito de susto; era, sim, um grito de exaltação, de felicidade... Um grito de esperança.
          Naquele instante, todos que ouviram aquele grito correram em direção ao convés e se depararam com um marinheiro que dentre tantos, até poucos minutos andava cabisbaixo e por demais sisudo; um marinheiro, que com a sua corcunda ainda mais em curvatura, parecia querer proteger algo precioso e frágil. Entre as mãos, trazia algo que a distância não dava para distinguir o que era; chegou-se até a pensar que poderia ser uma espécie de brincadeira com o objetivo de quebrar aquela monotonia e alguns ficaram a observá-lo meio estupefatos.
          O marujo começou a seguir lentamente, sem retirar os olhos das suas mãos, que postavam-se em conchas. Os homens, ainda carrancudos, não mais tinham interesse em observar aquela ridícula cena; não seriam idiotas em servirem de bobos e, lentamente, tentaram voltar ao que antes estavam fazendo; ou melhor, nada!
          Assim que o marinheiro abriu as mãos, um pequeno pássaro surgiu entre seus grossos dedos e o homem nada conseguiu falar, pois, a sua concentração estava voltada para o pequeno ser vivo que estava sob a sua proteção. Proteção... aquela responsabilidade lhe causou medo, causou pânico. Se nem ele mesmo tinha proteção para si, como poderia ter para outrem?! Como poderia se responsabilizar pela pequena e inofensiva ave?! De ímpeto, pensou em desvencilhar-se do pequeno animal, mas como fazê-lo? Suas mãos pareciam paralisadas, seus dedos não obedeciam aos movimentos desejados ou não havia a vontade de deixar aquele pequeno ser vivo a toa? Nem ele mesmo tinha certeza ou resposta para tal interrogação.
         Quando um dos homens que naquele instante se afastava olhou para trás e viu que o homem que estava com as mãos em conchas continuava a observar o que as suas mãos protegiam, lentamente aproximou-se ainda meio carrancudo. Assim que viu que as mãos do marinheiro protegia um pássaro, e este parecia encontrar-se em um ninho, deu um grito mais estridente que o  grito anterior  e foi motivo para que todos se voltassem.
          Enquanto os homens, um a um, se aproximava, o marujo que protegia o inofensivo pássaro sentia um frio percorrer-lhe a espinha. Só mesmo a fé no próprio sentimento, a própria solidariedade humana era quem poderia saber como agir naquela situação.
         – Melo, o que há entre as suas mãos?
         Mesmo sendo a pergunta de um amigo, ele não pode responder por encontrar-se entretido na observação do pequeno e frágil pássaro que estava sob a sua responsabilidade; não que ele o desejasse. Mas, o destino o tinha feito guardião.
         Em poucos instantes vários marujos já se aglomeravam junto ao Melo e cada um deles, mais e mais tentava ver melhor o que as suas mãos protegiam e muitos ainda não acreditavam no que viam.
         Alguém, depois de observar a pequena ave identificou-a como sendo uma andorinha e também pode notar que estava cansada e ferida... A sua minúscula asa estava quebrada.
        Todos os homens abandonaram o convés e seguiram em direção à enfermaria. O corredor ficou muito tumultuado a ponto de um oficial imaginar que algum marujo se acidentara. Após saber do ocorrido, sorriu e os deixou à vontade com o enfermeiro.
         Quando os homens correram em direção à enfermaria, mesmo não demonstrando, já pareciam unidos por um único objetivo: salvar a vida da pequena e inofensiva ave que tinha surgido do nada, como que em um passe de mágica e ter pousado sobre um minúsculo navio na imensidão do oceano.
          Depois que deixaram a enfermaria, os homens pareciam ter reencontrado o afeto, respeito pelo próximo e a auto–estima que haviam perdido.
          Um dia após ter pousado na embarcação, o pássaro, que estava debilitado, morreu. Os homens nada disseram e só olharam  um para o outro e pareciam saber o que desejavam. Conseguiram um pequeno pedaço de lona e alguém desenhou uma flâmula; uma bandeira onde um pássaro representaria um país imaginário... O País das Andorinhas!
          Depois de enrolada na flâmula, alguém fez um discurso, e em seguida,  jogaram-na ao mar.
          O Comandante do navio que até aquela altura fingia não ver o que estava acontecendo, depois que viu aquele ritual infantil, e ao mesmo tempo, tão humanamente adulto, sorriu com seus próprios botões... Com um riso de felicidade retirou-se para o seu camarote onde possivelmente registrou aquela cena tão marcante no Diário de Bordo; será?...
           Poucos dias depois a terra foi avistada e todos os homens conseguiram mais uma vez fazer transparecer a felicidade nos seus semblantes.
           Os dias que lá passaram foram gratificantes e aproveitaram ao máximo.
           Teriam de volta mais ou menos uns doze dias de mar até a Ilha de Fernando de Noronha, no retorno ao Brasil. O comandante, apreensivo no que poderia acontecer aos homens que, possivelmente entrassem em depressão, tentou dizer-lhes algumas palavras; palavras que não mais seriam necessárias...
            Os dias de mar estavam sendo vencidos com naturalidade e apreensão... Não apreensão no que dizia respeito ao desespero, tédio ou outro mal que pudesse ser conflito interior. Os homens pareciam a cada dia, mais e mais unidos. Tinham uma esperança... Não uma esperança de que o navio chegasse ao porto de Recife antes da data prevista; aquilo seria impossível! A esperança era de encontrar outro pássaro como aquele que tinham encontrado na ida a França. Não um pássaro ferido e sim, um pássaro que viesse de um país que eles mesmos criaram... Um país, possivelmente só existente na imaginação de sonhadores.
            Na volta, em 15 dias, os sentimentos daqueles navegadores foram totalmente diferentes; havia a esperança de encontrar outro pássaro, pois aquele pequeno pássaro, serviu para fortalecer a amizade daqueles homens e a dizer-lhes que, a paciência e a tolerância são OS VERDADEIROS CALMANTES DA ALMA.
       

 * Navio Sírio, da Diretoria de Hidrografia e Navegação (DHN) – Viagem de 15 dias com destino a França em 1966. Quando todos os homens estavam entediados, surge uma andorinha. Quem iria IMAGINAR QUU UM PÁSSARO IRIA APARECER TÃO LONGE DA TERRA?
     Ofereço a Carlos Humberto de Melo (Stroll),  meu grande amigo, que participou de tal viagem e me contou, com um riso nos lábios, uma das suas centenas de aventuras.

Este trabalho está registrado na Biblioteca Nacional-RJ
carlos Carregoza
Enviado por carlos Carregoza em 27/11/2006
Código do texto: T302932
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Sobre o autor
carlos Carregoza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
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carlos Carregoza