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Eu também já fui Flamengo


Estou quase triste. Começo a perceber o enorme ódio que permeia a humanidade, ódio insolúvel, ódio milenar e sem esperanças de fim. Logo eu, no fundo um otimista, que sempre achei que vamos, todos, nos entender em algum momento dessa trajetória de dores e de breves instantes de felicidade.

Aqui percebi, concretamente, a inelutável solidão que nos acompanha, a todos, que nos faz procurar os mais diversos tipos de diversões e de contatos e a compartilhar sentimentos, esperanças e temores.

Tive, de repente, pena das pessoas, de mim inclusive, tive pena até daqueles a quem detesto por suas idéias rígidas e preconceituosas, tão diversas das minhas, talvez igualmente rígidas e preconceituosas, tive pena a ponto de quase chorar pela humanidade.

E tudo por causa de política, por causa de cotas raciais nas universidades, por causa de aquecimento global, por causa de desmatamento da Amazônia, por conta de um debate cerrado sobre criacionismo versus evolução, por causa de passeios matinais de cães, até por causa de mulher, uma linda mulher já me desentendi com alguém. Falta brigar por time de futebol, mas nessa briga eu não entro não, deixei de ser Flamengo quando o Romário mais o Edmundo estiveram por lá, mas pela Seleção ainda sou capaz de encarar uma querela.

Não vou externar a minha opinião sobre todos os assuntos que listei acima, porque não
interessa a ninguém, a quem pode interessar a minha opinião? E com certeza vai é despertar a ira daqueles que pensam diversamente de mim que vão fazer chover cartas e e-mails de protesto ou escárnio e, talvez, um solitário e tímido grito de solidariedade. Uma outra opção, esta mais catastrófica, é o total desprezo, não obter uma resposta sequer, nem mesmo o protesto e a repulsa.

Bem, já não pretendo convencer ninguém de nada. Que frase, três nãos embutidos! Só falta algum purista da língua vir me criticar. Recolocando: já não pretendo convencer alguém. O de nada é desnecessário. Porque quem tem opinião formada não se deixa convencer.

E, agora, cabe a pergunta: como alguém que tem opinião formada pode mudar? Mudar por quê, se o conjunto de minhas opiniões é o que me dá solidez e segurança na vida? Admitir a mudança seria uma confissão de se estar inseguro, e como nós, pais de família e responsáveis por tanta gente poderíamos admiti-lo?

Não podemos, não é verdade? Temos de ser firmes, bravos e intimoratos, defensores de nossas posições até o fim do mundo.

Mas, tenho de confessar, eu já mudei de opinião algumas vezes em minha vida. Já disse, acima, que não sou mais Flamengo... E antes que algum flamenguista doente venha me agredir, vou corrigir, calma gente, eu ainda sou Flamengo, o Romário já saiu de lá, tudo bem. Viu, sou capaz de uma autocrítica e da correção de posições. Já o fiz muitas vezes, já estou menos rígido, acho que é a maturidade conseguida a tão duras penas que dá tal capacidade. Mas, principalmente, admitir a mudança é reconhecer que o tempo passa e que tudo evolui. E sempre temos a esperança que evolua para melhor.

Enfim, tendo que viver em um mundo de conflitos, desejo a todos muita paz e alguma autocrítica.
Jacques Levin
Enviado por Jacques Levin em 27/11/2006
Código do texto: T303024

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Sobre o autor
Jacques Levin
Vassouras - Rio de Janeiro - Brasil
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