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Do planejamento em nossas cidades

Do planejamento em nossas cidades

É notável o crescimento acelerado da nossa sociedade. Principalmente dos grandes centros na última metade do século passado. Que por certos motivos acumulam atenção das populações periféricas e acabam atraindo uma boa parcela delas. Essas que sem esperanças de um futuro em suas regiões, pois estão distantes do núcleo do desenvolvimento, partem para as grandes cidades em busca de melhoras de vida. O que muitas vezes é uma promessa ilusória.

Quem contribui para essa migração é o nosso serviço de televisão aberta. Que sem nenhum escrúpulo vende uma idéia da cidade como resolução para todos os tipos de problemas. E mesmo que se diga, em defesa à televisão, que ela mostra uma ficção e acredita na ficção quem quiser é muita hipocrisia acreditar que pessoas que não sabem escrever, nem pensar direito, terão esse senso crítico de distinção. É na cidade que está o dinheiro. E na verdade é o acúmulo dele que é vendido como sucesso de vida. E mesmo que muitas das pessoas que se deslocam para as cidades estejam passando miséria é a fome um fator fundamental nesse êxodo.

Fome essa que não é aquele aperto que sentimos quando passamos muitas horas sem comer. Fome essa que é aquela de ver seus filhos magros e raquíticos tendo que dividir um saco de arroz no mês inteiro e muitas vezes se desumanizando ao comer animais de qualidade alimentícia dúbia, e algumas vezes comer até sopa de papelão.

Muitos dos que chegam às cidades e conseguem algum tipo de trabalho, do informal ao escravo, tendem a mandar dinheiro de volta para os locais de que partiram. Ou sonham em acumular dinheiro para um dia poder voltar e construir uma casa e dar mais dignidade a suas existências e de suas famílias. E nesse processo de vir à grande cidade, acumular dinheiro ou apenas ganhá-lo é que a coisa complica do ponto de vista estrutural das cidades.

Esquecendo o passado e sem lamentações, devemos olhar para o futuro. Essa é a nossa realidade. O inchaço de nossas cidades é algo descomunal. Temos hoje superlotações para onde quer que se olhe. E as zonas mais afastadas, estas livres para construção e ampliação do espaço urbano se tornam longínquas dos centros nervosos das metrópoles, que é onde todo o dinheiro circula com mais intensidade. E é onde as pessoas liberam-no do modo informal com maior intensidade. É onde camelôs, engraxates, músicos, poetas, vendedores ambulantes, bancas de jogos ilegais, prostitutas e muitas outras práticas informais e ilícitas se dão com uma intensidade proporcional ao descaso dos governos.

É muito linda a prática de alguns governos. Simplesmente, de vez em quando, passam recolhendo os mendigos, crianças de rua e demais elementos marginalizados e os jogam em outro lugar, muito mais longe de onde estão. Para “limpar” a paisagem.

Outra prática louvável é a de recolher os meninos de rua e jogá-los em casas de “reabilitação”. Cujas ensinam-los a serem melhores marginais e sobreviver de forma mais contundente na selva urbana. Igualmente ao nosso sistema carcerário. Um primor da engenharia de recuperação social do Estado. Onde podemos ver reunidas pessoas que roubaram uma galinha para sobreviver juntas com aqueles que não só mataram outras pessoas como torturaram e degolaram-nas. Uma escola de profissionais da ilegalidade. Cujo gasto para nós cidadãos é de quase dois mil reais por mês e a reabilitação do cidadão é deixada em segundo plano.

É, também, extremamente gratificante ver que os sistemas de telefone, escoamento de águas e de tratamento delas, energia e de transportes públicos evolui em uma taxa relativamente pequena comparada ao crescimento das cidades. O que ocorre? Milhares de processos diários contra companhias telefônicas. Enchentes logo após meia hora de uma chuva intensa. Medos de blackouts de tempos em tempos e um aumento abusivo das passagens de ônibus, estes que não são de modo algum bem inseridos na sociedade, com motoristas que beiram o psicótico e estruturas capengas. Muitas vezes com superlotações por falta de maior circulação dos “carros” (gíria usada pelos próprios motoristas).

O espaço urbano entrou em colapso pela super população que se amontoa em regiões ridiculamente pequenas. Produzindo um entupimento em todas as áreas sociais existentes. Na construção de casebres e barracos em lugares onde um desenvolvimento estrutural é altamente desaconselhável. Na falta de atendimento hospitalar, escolar, social e também na questão do entretenimento. Tudo isso contribui para o crescimento dos procedimentos ilegais para se ganhar a vida.

Aliado à essa situação caótica social temos, ainda, o lento processo de reorganização estrutural de nossas cidades, pois quanto mais pessoas nelas habitam mais difícil fica mudar alguma coisa. O transtorno para construir um simples viaduto em uma cidade grande afeta diariamente a vida de milhões de pessoas. Então caberia uma forma mais eficaz de reorganização urbana. O que esbarra no quesito investimento e que esbarra em um sistema que visa o lucro. Quem, pense bem, quem em perfeito juízo de estado vai querer investir a fundo perdido nas construções de uma nova estrutura urbana? Se você pensou que é o Estado se enganou. Atualmente vemos que o Estado só faz alguma coisa na marra e na pressão. Falta dinheiro para tudo.

A crise urbana é a crise da sociedade. A sociedade não mais se organiza, não mais se faz valer os direitos. Estamos nos tempos em que conceitos, valores e vontades se esvaem ao mesmo tempo que os novos conceitos são injetados diariamente em nossas mentes. Massivamente deixamos de pensar na sociedade como um todo, em um futuro rumo a algum tipo de progresso coletivo e passamos a nos interessar cada vez mais por nossos próprios umbigos. Até enfeitando-os com piercings que são a suprema volta ao primitivismo e a celebração mais bitolada de todas no culto moderno ao corpo.

E é justamente essa falta de perspectivas que nos faz viver como se não importasse muito o que se passa. Os EUA destroem o mundo com seus gases poluentes e resíduos atômicos e estamos felizes com nossos novos mp3 players. A Europa está entrando em colapso de recursos, como por exemplo a água, e estamos aqui destruindo nossas reservas de água com poluições. A Ásia copia tudo e joga no mercado internacional e estamos super abarrotados de lixo ao redor do mundo. Mais da metade da África está morrendo de Aids e estamos rindo e celebrando em nossos eventos de orgia pública em shows e festas.

E nosso egocentrismo chega ao ponto de dizer que “Isso não é problema meu”, “Eu não posso mudar nada disso mesmo”, “Que se fodam os pretos morrendo lá, estamos bem aqui”. Nunca a idade mental de nossa população esteve tão baixa. E isso se reflete na total falta de projetos pra o futuro. Somos robôs, programados para aceitar. Seja na doença ou na saúde.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 02/07/2005
Código do texto: T30336
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz