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MEUS ADORÁVEIS 43

           Lembro-me como se fosse hoje: aos quinze anos, as mulheres de trinta para mim eram aquelas pessoas a quem obrigatoriamente me dirigia com uma certa reverência e acrescentando um "Dona" antes do nome.
-          Dona Antônia, a senhora pode chamar a Ritinha pra mim, por favor?
           Dona Antônia, mãe da Ritinha, minha colega, não teria mais do que trinta e cinco anos. Velhíssima, coitada. O que pode querer da vida alguém com esta idade toda? Pensava com meus botões como seria horrível ter trinta e tantos anos. Era uma realidade por demais distante. Eu ainda teria muito tempo até chegar lá. Um claro engano, como sabemos todos nós.
            Aos vinte e poucos, as de quarenta então, eram pra mim apenas os escombros que restaram do que um dia poderia ter sido uma bela moça. Aliás, na verdade, eu tinha a nítida impressão de que aquelas "senhoras" já tinham nascido estragadas daquele jeito. Jamais imaginei que gostaria de envelhecer. Estou usando a palavra envelhecer, em lugar de amadurecer, de propósito.
             De uns tempos pra cá viraram moda certos eufemismos. É crime terrível usar a palavra envelhecer. Como se ninguém fosse chegar a isso. Envelhecemos sim. E não é nenhuma desgraça. Pensando nisso e fazendo esta espécie de retrô, vejo como meus olhos jovens eram míopes. Ou talvez a realidade daquela época fosse outra. Talvez realmente hoje as mulheres envelheçam com mais dignidade do que antes. Não estou aqui falando de botox, lipo, anti-rugas, silicone. Estou falando de dignidade mesmo. De saber que a idade hoje não nos inutiliza e nem nos condena à cadeira de balanço, agulhas de tricô e rosário na mão.
           A idade, que antes nos levava direto para estas condenações e outras ainda piores, tornou-se agora, para quem sabe fazer uso do que a vida deu, porta aberta não para a morte, mas para o começo da vida.
           Meus quase quarenta e três são pronunciados quando perguntam a minha idade com um orgulho quase infantil. Quase como se dissesse: "Dezesseis aninhos, meu caro". Amo estes quarenta e três que me trouxeram a noção exata de quem sou, quem eu ainda quero e poderei ser, o que eu  gosto e não gosto e principalmente, que me deram o orgulho merecido de ter chegado aqui com a dignidade suficiente, inclusive, para aceitar as opções da cadeira de balanço, do tricô e do rosário exatamente assim: como opções e não como condenações.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 02/07/2005
Reeditado em 02/07/2005
Código do texto: T30352

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai

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