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Novela do Tempo - em quatro partes

Parte I

Já estava ali há algumas poucas horas. Horas gastas em
nada, a não ser que horas gastas consigo mesmo seja algo
válido. Diante de si, um livro. Um livro como qualquer outro,
mas jamais fora ensinado a ler. Sim, realmente ler. Conhecia
as letras, seus sons e seus sentidos quando juntas formam
palavras, frases, textos. Mas, permanecia ali, intato,
imóvel. Tinha uma idéia fixa, idéia que aprendera ou assumira
no decorrer de sua vida medíocre. A idéia: "cada livro traz
uma idéia, falsa ou verdadeira, mas a traz e a pretende impor
a cada um que o leia". O livro é instrumento autoritário,
arbitrário, você conseguiria resistir? Eis a grande questão:
resistir? Tinha suas idéias, idéias boas, mas e se abrisse os
livros e iniciasse a lê-los? E por que insistia em ficar
naquela Biblioteca? Se repudio algo que possa mudar minhas
belas idéias, por que fico justamente no lugar que isso pode
acontecer em potencial?

Parte II

E sempre aquela idéia fixa retornava: "cada livro traz uma idéia, falsa ou verdadeira, mas a traz e a pretende impor a cada um que o leia". Era assim mesmo que pensava: imposição. Impor. Sem chance de resistir. A partir do momento que você aventurar-se em ler uma obra sequer, jamais será o mesmo após a leitura. Não ser o mesmo, essa idéia também o atormentava.
     Havia lido num livro juvenil que nosso vocabulário era apenas uma cópia daquilo que entendíamos do mundo. Não era o mundo como ele realmente deveria ser, mas o mundo como parecia-se a nós. Apenas uma representação de nós mesmos. E se o mundo é apenas uma representação de nós mesmos, o mundo real jamais será pensado por nós. Enfim, cremos num mundo que não existe. Uma outra idéia que o atormentava. Todas as suas crenças baseavam-se numa ilusão humana. Pasmem, até a ciência é uma ilusão, uma ilusão ilustre.
     - Sr. Campos?
     - Sim?
     - O senhor não poderá dormir aqui. Sugiro que o senhor vá para casa. Até por que...

Parte III

- Até por que já passa das cinco e a biblioteca vai fechar daqui a dois minutos. É melhor o senhor ir para casa e voltar amanhã.
- Amanhã? Como você pode ter certeza que amanhã poderei voltar?
- Rotina.
- Rotina? Apenas uma simples palavra, rotina? Você tem razão, vivemos imersos na rotina. Cotidiano. Dia-a-dia. Você acertou, Olegário. Não é esse o seu nome?
- Sim, Olegário Xavier.
- Tudo bem, amanhã estarei aqui sem falta. Tudo em nome da rotina. A velha organizadora da existência, não é?
- Que seja, sr Campos, mas agora tenho que fechar, ok?
- Sim, tem que fechar. Mais uma vez a rotina, não?
 
     "Tempo. Rotina é o Tempo organizado. Tempo ditado. Nossa existência está presa ao Tempo e a sua mais ilustre serviçal: rotina. Acho que não conseguimos conhecer além por culpa dessa danada rotina, que nos faz rebanho e não homens. Aquilo que o velho Nietzsche escreveu. Aquilo que Cervantes mostrou a Dom Quixote. Moinhos de vento é rotina, cavalheiros com espadas desembainhadas, bruxos enfeitiçando o mundo, ilhas para serem governadas, donzelas em perigo é a maior fuga da rotina. Cervantes era homem e imerso na rotina, mas Dom Quixote era um deus que ultrapassou a rotina. O homem escreve para sair da rotina. Nietzsche condenava toda a moral da sua época, mas assim que descansava sua pena mergulhava também nesse mundo medíocre que tanto atacava".
 
     "Petulância humana. O homem pensa que o Tempo existe por que existe o homem. O homem existe imerso no Tempo e não o contrário. O Tempo é algo que faz com que as coisas existentes tornem-se não existentes. As pessoas. Os nomes. Os rostos. Os Olegários. Os Xaviers. Mas o Tempo permanece. O Tempo permanece terminando as coisas".
      "Poderia ter sido um ator. Um professor. Um escritor. Um engenheiro. Um presidente. Um magnata. Um atleta famoso. Mas sou um funcionário público. Um funcionário público aposentado. O que sei? Entendo de papéis. Papéis que amarelam-se com o Tempo. E o Tempo os destrói. Assim como destruira num tempo qualquer a minha existência. A sua força é tão superior que se eu ainda fosse um presidente ou qualquer outra coisa superior o que eu sou e fui, ainda assim o Tempo me destruiria".
 
- Campos! Campos! Ei, homem, está surdo? Vem jantar, quanto tempo perdeu lá naquela biblioteca? Vem, depois de jantar, apaga a luz e joga o lixo lá fora. Amanhã é um novo dia!
 
     "Novo dia? Quanto Tempo gastei? Isso é assustador..."

Parte IV

Dali onde estava conseguia contemplar a lua cheia. Muita luz, uma luz amarela rodeava a lua. Linda. E sempre invadia sua mente aquela palavra chata: rotina. A lua também estava presa a essa rotina. Dando voltas ao redor da Terra. Quantos anos? Milhões? Milhares? Quantos povos já contemplaram a lua da mesma posição que agora a contemplo? Hebreus, Fenícios, Egípcios, Gregos, Romanos, etc. Quantos significados ela já teve? Acredito que para cada povo da antiguidade havia um significado particular. Deusa, semi-deusa, Diana, Diabo, o olho-de-Deus, sorte, azar, maldita, bemdita, etc. E hoje? Os poetas muito lhe devem. Sua mente fixou-se nos Gregos. Imaginou os filósofos pré-socráticos discutindo sobre a forma, a luz, o movimento daquele belo astro. Viu Tales caindo da laje e, num movimento vacilante, tentou segurá-lo. Achava que com esse ato interferiria na História. Mas ao mesmo tempo acreditava que esta jamais poderia ser diferente. Tales deveria cair da laje, custasse o que custasse, mas ele cairia. Tinha essa idéia como verdade absoluta. Essa idéia trazia-lhe um misto de felicidade e frustração. Felicidade por conhecer uma verdade universal e comprová-la tão facilmente, ou seja, o destino. Frustração por não poder mudar em nada o percurso da História, ainda que fosse Hércules ou Heródoto. Aproximava-se dele uma pessoa. Um vulto, será? Subia com facilidade aquele pequeno monte. Pensou em sair, pois queria ficar a só. Mas agora já era inevitável, o sujeito estava já bem próximo. Arriscou sorrir, mas o sujeito parecia indiferente a sua pessoa. Arriscou um diálogo. Esperou mais um momento, até que o sujeito chegasse à luz. Da penumbra, alcançando a luz e dividindo seu espaço, assusta-se com a figura diante de si. Timidamente, arrisca:
- Sócrates...?
 
- Campos, Campos, acorda, homem!
- O quê? Suba...
- Campos, você está suando, homem! É mais um daqueles seus sonhos?
- Tudo bem, passou, está tudo bem...



Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 28/11/2006
Código do texto: T303607

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
248 textos (11052 leituras)
2 e-livros (65 leituras)
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Rodiney da Silva

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