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Aconteceu na Lapa

     Isto também aconteceu na Lapa. Algumas pessoas acham isto impossível, pois cenas tão esdrúxulas são apenas possíveis nos filmes tolos de Michael Moore. Não, mas quem conhece a Lapa sabe que isto é possível. Um amigo que frequenta bastante o bairro boêmio carioca sabe muito bem que isto é possível. Acredito que todas as pessoas que se deliciam com este antro do sambarockmaracatusebosbrechósbaresrestaurantesputastravestismendigos..., sabe muito bem que isto é possível.
     Outro dia estava conversando com o Pastor da Igreja Batista Farol da Lapa - acreditem, mas a Lapa tem sua igreja Batista - quando apareceram dois mendigos muito bem vestidos estilo Chaplin. Um deles cumprimentou o reverendo, pois já haviam almoçados juntos diversas vezes durante os vários sopões da igreja.
     Os dois mendigos se cumprimentaram tão calorosamente que foi comovedor. Não costumo ver tamanha simpatia entre amigos não mendigos, mas aqueles dois seres marginais se amavam. E sentiam uma saudade tão grande um do outro que o próprio Sancho Pança ficaria envergonhado.
     "- Meu amigo, quanto tempo! Por onde tem andado, dormido?"
     "- Estou morando em Vila Isabel. Ali na Boulevard, mesmo. Sabe?"
     "- Nossa, mas tão longe? Por quê?"
     "- Sabe, depois da morte da Maria as coisas mudaram muito. E não aguentava mais aquelas escadas da Igreja dos Pobres, na rua dos Inválidos. E aquela velha preta que dorme lá, já estava me tirando do sério e você me conhece, né?"
     "- Sei, aquela velha é uma pobre coitada, se não fosse o padre ela tava mal, né? Mas deixa disso, você conhece o pastor aqui?"
     "- Conheço, já almoçamos juntos algumas vezes. Mas tem algum tempo que o 'seu' pastor não me convida pra almoçar, né? Hehehehe..."
     O pobre pastor sorriu sem graça, pois seu verdadeiro intento era que aquele assistencialismo cristão servisse para redimir um pouquinho das mazelas daqueles desafortunados. Pois a letra sagrada não era suficiente para diminuir o sofrimento daqueles que se perderam nas confusas entranhas da urbe. Mas eu acredito que aqueles dois amigos da rua eram apaixonados pela gratuidade da vida. Muitos diriam que não, pois é impossível um ser humano preferir o "vazio" de uma vida indigna a "plenitude" de uma vida digna.
     "- Sabe João, tenho que voltar pra Vila. Tem um pessoal armando uma festa na rua por causa da seleção. E sabe cumo é que é, né? Não podemos desperdiçar as chances que a Providência nos oferece."
     "- Sim, sim irmão. Vai nessa! Mas cuidado com os cachorros que sempre nos roubam o melhor das sobras, hehehehe..."
     "- Sim, pode crer, hehehehe... Ei, João, você ainda mora no Beco dos Ratos?"
     "- Mas é claro, meu velho! Onde ficam os cachorros é o lugar, não?"
     Bem, os dois se despediram muito mais esfusiantes que o encontro. Abraçaram-se tão fortemente que o pequeno João chegou a levitar. E cada um seguiu seu rumo. Eu me despedi do meu amigo pastor com um simples aperto de mão, pois não sou tão mendigo para demonstrar meus verdadeiros sentimentos.
Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 28/11/2006
Código do texto: T304296

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva

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