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Imposições contemporâneas

     Gostava daquele movimento. Dos grandes prédios que podia contemplar dali, da larga Av. Chile. Na verdade, passava poucas vezes ali, pois não era mais preciso. Agora era superintendente administrativo da famosa empresa L. Pôde deixar a Zona Norte e morava num aconchegante apartamento da Buarque de Macedo. O Flamengo não era ainda tudo que desejava, desejava mais. Desejava uma cobertura no glacial Leblon. Desejava a coluna social da H. Desejava uma bela mulher em seu quarto, mas sempre que pudesse renovaria sua alcova. Pois não suportava a repetição. Repetir roupas? Jamais. Sinal de fraqueza. Repetir mulheres? Nunca. Fraqueza. O amor não existia mais, a não ser nos velhos livros de romances e poesias de 1800. No tempo atual a única coisa que existe sou eu. A realização do eu. A imposição do eu. E quem não aprender esta grande lição da natureza hodierna estará entregue a um vazio existencial profundo. Lutara toda a sua vida para que seu eu fosse referência. E para isso teve que abandonar sua antiga casa na Zona Norte. Teve que abandonar seus pais, pois estes tentavam imputar-lhe um não eu. Acreditava que seguia o rumo da História, estava atualizado com seu tempo. Extinguir de si mesmo todo e qualquer sentimento. Os sentimentos era para os fracos, aqueles que não acreditam em si mesmo. Como aquelas pessoas que enfrentavam filas imensas para pegar um ônibus com destino a longínqua Zona Oeste. Todas aquelas pessoas ele considerava como carga. A massa. O populacho que só serve para fazer os trabalhos mais desprezíveis. Aqueles velhos desdentados esperando uma ajuda para subir nos altos degraus dos ônibus. Aqueles pretos, filhos dos alforriados pela princesa que agora lotam as favelas e as celas imundas de nossa cidade. Via os pivetes sendo levados pela polícia em meio a cascudos e gritos insanos do povão: lincha! Caba safado! Mata este filho da ...! Lembrara do velho Anselmo, o faxineiro da ala C. A ala C era onde ficava a sua sala, no alto do 10º . andar da bela Tower da empresa L. Lá de cima podia ver a Ilha Fiscal, a Ponte Rio-Niterói, toda a Baía de Guanabara, etc. O velho Anselmo era uma dessas pessoas que ele ignorava. Costumava dizer: “Para que serve este velho, a não ser para limpar o chão? O mundo é movido pela força dos homens, dos super homens e não por estas pessoas ignorantes e fracas!” É claro que ele falava estas coisas em sua solidão, pois jamais poderia catequizar as pessoas com sua filosofia, porque elas poderiam tornar-se adversárias e concorrentes. Se sentia senhor de si mesmo e senhor de tudo. Projetava que em mais dois anos chegaria à presidência da empresa. Em meio aos seus delírios de grandeza, a figura dum velho que empurrava uma carrocinha de lixos recicláveis chamou-lhe a atenção. Interrogava-se: “O que faz este velho querer viver? O que o motiva a manter-se vivo, a empurrar esta carroça e revirar lixos?” Adorava comparar sua vida com a vida daqueles “infelizes”. Entendia que para aqueles era muito fácil ser religioso, pois não tinham mais a quem recorrer em suas desventuras existenciais. Concluía que a religião é a válvula de escape dos fracos, dos pobres, dos coitadinhos e a religião dos fortes era auto-afirmação. Mas o velho catador de lixos voltava a perturbar-lhe seu exercício existencial de auto-afirmação. Ele se aproximava e podia ouvir que o velho cantava uma canção. Uma antiga melodia que costumava ouvir em sua infância e, a canção, retornava freudianamente em seu ser. Podia ver várias pessoas de sua família. Via sua irmã mais nova, sua mãe com um bolo na mão e seu velho pai cantando com uma grande Bíblia na mão. Via uma grande árvore de natal e uma fraca lágrima jorrou do rosto do semideus contemporâneo. Não querendo que aquelas pessoas desprezíveis vissem sua fraqueza momentânea, enxugou a lágrima vacilante e espichou o corpo como um valente soldado pronto para a batalha, ensaiando uma saída gloriosa daquela situação. Teve que esperar o velho catador passar para poder prosseguir sua caminhada. E quando o velho e a antiga canção passavam pela sua frente, teve um espanto: “Papai?”
Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 28/11/2006
Código do texto: T304304

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva

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