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O disquinho

   Não tenho a memória privilegiada. Foge-me constantemente coisas boas e ruins que um dia fizeram morada em minha mente. Mas Deus faz tudo direitinho, pois a minha esposa tem de sobra essa tal memória.
   Mesmo sendo precária minha caixa de lembranças, lembro-me de um acontecimento em minha infância constantemente. Lá pelos idos dos anos 70, minha mãe, certo dia, chegou em casa com aqueles pequenos discos de vinil. Aqueles que só tinham duas músicas. Lado A e lado B, lembram? Mas como já disse que minha memória é fraca, muito fraca, não consigo lembrar nem da música e nem da cantora. Mas lembro-me que era uma cantora.
   Bem, quando minha mãe colocou aquele disquinho para tocar, aquela música tocou-me tão profundamente que remetia-me a uma tristeza que começava a chorar. Uma tristeza deliciosa. Depressão. O motivo? Não sei. Apenas melancolia. Ou se houve algum motivo esqueci-me devido o que aconteceu posteriormente.
   E eu colocava sempre aquela música para eu poder sentir aquela dorzinha gostosa. Aquela tristeza toda a tarde tornou-se uma necessidade para meu pequeno coração infantil. Um coração que já era poético há muito tempo. E ficava ali deitado no sofá relembrando meu pequeno passado infantil e projetando-me a um futuro desconhecido, mas que desejava cheio de delícias.
   O que eu vinha escondendo por muitos dias foi descoberto pela minha mãe. Um dia chorava ouvindo a deliciosa melodia, em transe com minhas viagens juvenis, minha mãe flagrantemente pegou-me em profunda melancolia. Na mesma hora começou a inquirição. Tentei inventar desculpas, mas quem pode enrolar aquela que te abrigou dentro de si por nove meses? Ninguém engana a mãe. Entreguei-me por completo. Dizia que não entendia por que tinha aquele comportamento diante daquela canção. Mas ela insistia numa explicação. Mas não havia explicação. Daquele dia em diante percebi que deveria esconder alguns sentimentos que revelassem fraqueza. Mas não era fraqueza, nem frescura, era apenas um impulso natural diante do belo, do terno. Sim, ternura. Mas a inquisição concretizaria-se num Sábado, diante de testemunhas familiares e do maior inquisidor de minha vida: meu pai.
   E num Sábado, minha mãe resolveu lembrar meu pai de minha melancolia infantil musical. Meu pai imediatamente ordenou que minha mãe colocasse o disco. Disco colocado. O pequeno espaço entre o colocar e o iniciar a música tentei controlar-me ao máximo e vencer meus próprios sentimentos mais vorazes. Mas como ser mais forte daquilo que lhe é mais forte? Nem mesmo o olhar austero de meu pai abalou meus sentimentos mais sinceros. Tais sentimentos ultrapassavam a vontade do grande inquisidor. Eu mesmo era superior ao meu carrasco. Dane-se a forca, eis-me aqui, abata-me!
   Quando a bela canção começou todas aquelas imagens vinham ferozmente em minha mente, conduzindo-me a um delírio delicioso e sedutor. As lágrimas não demoraram e meu pai olhava-me com aquele rosto carrancudo exigindo uma postura mais adequada para um macho. Macho não chora. Sim, respondi-lhe que era homem. E homem chora. Pois o choro é uma reação natural humana. Se macho não chora, então macho não é homem. Foi a minha primeira vez que experimentei a lógica aristotélica. Os homens choram. Os machos não choram. Logo, os machos não são homens. Premissas verdadeiras, conclusão verdadeira.
   E eu e Aristóteles quase fomos sacrificados pela truculência do inquisidor-mor. Meu pai ordenou a minha mãe que retirasse o disquinho e o troxesse até ele. Meu pai olhou-me sério, talvez para ver se as lágrimas ainda insistiam em desafiar-lhe, e fez uma breve meditação. Viu que as lágrimas teimavam pela valentia. E deu ao disquinho seu destino cruel. Em suas mãos estraçalhou em miúdos aquele que era responsável por tardes deliciosas de minha infância. Via os pequenos cacos derramando-se pelo chão. Em cacos também estava minha alma. Como viver as tardes sem aquela doce voz, sem aquela doce melodia? Dali em diante passei a esconder o máximo que podia meus sentimentos. Sentimentos que eram considerados frágeis para o meu inquisidor.
   Hoje estava ouvindo Forever Young do Alphaville. Linda canção. Ouvíamos eu, minha filha e minha esposa. Nós três viajamos livremente nos doces acordes. Livres sem medo de represálias de sermos nós mesmos. De sentirmos o que sentimos. Pude ver uma pequena lágrima nos olhos de minha filha, aquilo foi terno, sublime...
Rodiney da Silva
Enviado por Rodiney da Silva em 29/11/2006
Código do texto: T304338

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Sobre o autor
Rodiney da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 46 anos
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Rodiney da Silva

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