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Não há saída.

Olhar para todos os lados e não enxergar saída, umazinha sequer, é algo que mete medo em qualquer um. Menos no caso em que o indivíduo sequer sabe que está preso. Quando uma cela invisível o cerca tão bem que mesmo aprisionado nada se nota de diferente, e com isso vai-se vivendo tranqüilamente em busca da morte certa. Parece coisa de Platão? Por que não?
Como notar um detalhe tão ínfimo que nos cerca sem parar para pensar? “Pensar é a chave do conhecimento” já dizia o provérbio chinês antes mesmo de Cristo nascer. Estamos aprisionados em uma sociedade. Estamos à mercê de incontáveis ataques que só fazem querer nos iludir.
A famosa premissa de que muito mais vale viver na feliz ignorância do que na triste realidade se aplica mais e mais ao nosso redor. A cada dia que passa ficamos mais iguais aos personagens de Admirável Mundo Novo de Huxley. Não sabemos porque fazemos certas coisas, não entendemos certos padrões e não ligamos para o que nos impulsiona. Estamos imersos na manipulação mais inquietante que o mundo já viu. Atualmente apenas ligamos para continuar vivendo.
A sociedade corrida de hoje em dia nos impõe que não pensemos no que fazemos, que apenas façamos. O tempo cada vez mais curto e as tarefas cada vez mais freqüentes nos privam de um tempo ocioso, necessário a qualquer desenvolvimento pensante. Mesmo em nossos tempos livres vamos a lugares e fazemos coisas que evitem o pensamento. “Já penso o dia todo durante a semana, por que pensar enquanto estou descansando?” Se fosse assim seria maravilhoso. E a vida continua.
Saímos para trabalhar e comemos comidas já prontas em locais que nos fazem esse favor durante o café da manhã, o almoço e o jantar. Entramos em transportes individuais e/ou coletivos para irmos estudar e trabalhar, o que não nos deixa tempo algum para fazer outras coisas durante esse percurso. Estuda e trabalha-se a maior parte do dia, e quando chegamos em casa queremos descansar para poder no dia seguinte agüentar o tranco novamente, apenas para continuar existindo. Sobrevivendo a vida caótica.
A vida perdeu a graça. Tudo é tão metodicamente pensado que as simples coisas da vida são negligenciadas a tal ponto que se repararmos direito tudo o que fazemos é dispensável e poderíamos viver perfeitamente sem elas. Estamos sendo encurralados e espremidos a tal ponto que não temos mais como questionar, e acabamos obedecemos às regras impostas por falta de opções. Estamos perdendo nossas vidas.
Desde crianças somos conduzidos por caminhos que nos trazem a alienação em quanto pensamos que somos livres. Acabamos por perceber muito tempo depois que tudo o que fizemos não valeu, nada daquilo que fizemos que pensávamos que estaria nos levando à algum lugar realmente teve uma serventia.
O fato de estar vivendo já seria uma benção tamanha a agradecer por toda a eternidade, mas as pessoas não se contentam em viver. Nossa sociedade introduz um novo pré-requisito à vida: a cobiça. Não basta apenas um carro, quer-se o carro do ano. Todos hoje em dia têm um celular, criou-se um grupo interminável de pessoas intransigentes que precisam ser encontradas naquela hora especifica. O esperar nunca foi tão penoso quanto atualmente. O tempo passou a ser vendido e cada pedaço dele que perdemos é como se perdêssemos uma parte nossa. Tudo tem seu preço, a parte corruptível da população cada vez aumenta mais, os princípios e valores estão escoando para o ralo. Mas como conta a mitologia, da caixa de Pandora nos sobrou a esperança.
Não existe mais o prazer de desfrutar de cada experiência que se vive. Queremos ter as experiências e não vive-las. Queremos morar em outro país pelo simples motivo de que lá nos é vendido outro estilo de vida. Tudo o que consumimos hoje em dia é vendido como parte integrante de um modo de vida, de uma filosofia barata que nos envolve sem que percebamos.
Cada alimento que compramos nos faz mais feliz, por que comemos tal tipo de feijão seremos mais alegres e sorridentes. Ao escovarmos os dentes com aquela pasta seremos mais unidos e nossas famílias serão mais divertidas. Se usarmos um desodorante teremos sucesso na vida e as mulheres nos verão com outros olhos. Tendo em casa aparelhos de ultima geração da tecnologia todos serão seus amigos e terá muito mais felicidade com isso. Saia na rua com um carro do ano e ande barbarizando os corações mais fracos mostrando que sua vida é agradável. Ouça uma música alternativa e mostre-se contra o sistema, o mesmo que lhe vende essas músicas. Pinte o cabelo e rasgue sua roupa mostrando que você não crê na validade do capitalismo barato e momentâneo. Olhe para trás depois e veja que você ajudou a consagrar esse modelo com sua patética mostra de indignação. Faça parte do sistema, seja feliz, pague e compre, não questione. Será que isso é vida?
Quando nos valemos do ter para poder ser nos dizemos que somos menos do que pensamos ser. Não mais olhamos para alguém e vemos o ser, não enxergamos a pessoa que estamos olhando, vemos o modo de vida que ele pode pagar. Sabe aquelas cenas do Matrix onde o sujeito vê o individuo pelas letrinhas verdes que caem? Então isso é o ser do cidadão. Pena que vejamo-lo como só a capa que tem. Roupas, celulares, sapatos, óculos, brincos, piercings, adereços mais. Tudo o que avaliamos é como ele combina todos os adereços que ele pode comprar. Não queremos saber se ele é integro, honroso, mal educado, mesquinho, cínico ou tampouco mau. Vemos o que queremos ver, o que estamos acostumados a saber avaliar. Seria a vida só isso?
Como podemos avaliar uma pessoa pelos seus pertencem se as pessoas já nascem em desvantagem em relação às outras? Bom gosto, diriam uns. Como avaliar bom gosto se é um conceito relativamente questionável? O conceito de bom gosto varia imensamente com a região do planeta em que se vive, ainda mais com as sub-regiões em que se nasce, mora e cresce. Bom gosto está diretamente relacionado com a sabedoria, inteligência, informação, capacidade de analise da pessoa. O que é extremamente impossível de qualificar e quantificar.
Estamos perdendo tempo com a vida como ela é. Vemos televisão, vamos ao cinema, umas idas ao teatro, passeios em shoppings tudo para escapar dessa prisão que nos é vendida e aceitamos. A prisão da vida real. Não podemos ser simples mortais que tem uma vida simples mas válida. Precisa-se fugir dela. Vamos nos refugiar em criações de outros, vamos nos afundar e por uns momentos ser outras pessoas que tem uma coisa que não temos, simplesmente não existem. Nós existimos?
Tudo isso poderia ser discutível por mais meio milhão de páginas, umas vinte horas de documentário e por tantos meios quanto possíveis. Mas isso não iria significar nada se a quem interessa tais manifestações não chegassem, se para quem está lendo, ouvindo, assistindo isso não signifique nada. Que pelo menos signifique uma besteira, uma idiotice, uma grande experiência, que isso signifique que você leitor está pensando. Pensar é viver, não deixe que sua vida passe inteiramente sem que pense em pelo menos alguma coisa que não lhe é vendida para pensar. Pense em quão tolo é você. Já é um pensamento.
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 02/07/2005
Código do texto: T30441
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz