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SAUDADE (Adaptação de um texto exclusivo)

Nesta vida, sofremos muitas dores. Algumas doem muito, outras nem tanto. Assim, dói quando trancamos o dedo numa porta, quando escorregamos e caímos no chão. Dói aquela torção de joelho. Doem um tapa, um pontapé, um sôco, uma paulada. Dói bater a cabeça na porta do armário da cozinha, dói quando tropeçamos, quando mordemos a língua. Dói dor de garganta, sinusite, cólica, pedra nos rins, tumor na prostata...

Tudo isso e outras coisas, doem!

Mas o que mais dói é a dôr da saudade.

Saudade de uma tia que mora longe, saudade deuma rua da infância, saudade do gosto de uma fruta, de um sorvete, de um dôce. Saudade da avó que morreu, do amigo de voley jogado na rua, do primeiro amor imaginário que nunca existiu. Saudade de um arraialzinho de uma cidade do interior, saudade da gente mesmo, pois o tempo não perdoa.

Doem essas saudades todas...

Mas a que mais dói, é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos abraços e beijos e até do suor. Saudade da presença e até da ausência: voce podia ficar na sala e ela no quarto,mas sabiam-se lá; voce podia ir para o seu serviço e ela para o dela, mas sabiam-se onde; voce podia ficar o dia sem vê-la, mas sabiam-se no logo mais...

Contudo, quando o amor de um acaba ou torna-se menor, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter. Saudade é basicamente não saber. Não saber mais se ela continua dormindo no sofá da sala, antes de ir para a cama; não saber se ele continua a roncar à noite, principalmente quando toma uma cervejinha; não saber se ela ainda usa calças jeans, aqueles saltos Luiz XV, aqueles decotes sensuais e provocadores; não saber se ele foi na consulta com o urologista, como prometeu; não saber se ela tem comido bem, por causa da mania de só almoçar depois que terminou sua tarefa no serviço; não saber se ele tem ido ao Mineirão ver o Galo, time vagabundo quando perde e o maior time do mundo quando ganha; se ela ao entrar na internet, acessa a página do "Recanto das Letras", à procura das crônicas e poemas que ele escreveu; se ela aprendeu a dirigir devagar, sem correr; se ele continua a preferir chopp escuro, se ela continua a preferir vinho tinto; se ele continua a sorrir com aqueles olhinhos apertadinhos, se ela continua dando aquela entonação na voz quando chama o nome dele; se ele continua a escrever tão bem; se ela continua detestando acordar cedo; se ele continua gostando de fazer um churrasco...

Saudade é não saber mesmo. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, principalmente quando do horário de verão, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como freiar as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche. Saudade é não querer saber se ela está com outro e ao mesmo tempo querer; é não querer saber se ele está feliz e ao mesmo tempo perguntar a todos os amigos por isso. É querer saber se ele já se recuperou totalmente da cirurgia, se é por isso que esta mais magro. Saudade é não saber se ela esta mais bela, se ela vai viajar, com quem vai viajar e prá onde vai viajar. É não saber o que ele esta fazendo nas noites de sabado e domingo. Saudade é nunca mais saber um do outro e ainda assim doer...

"Saudade é isso que senti enquanto estive escrevendo esta crônica e o que voce, provavelmente, esta sentindo agora, depois que acabou de lê-la..."
WFJunior
Enviado por WFJunior em 29/11/2006
Código do texto: T304660

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Sobre o autor
WFJunior
Sabará - Minas Gerais - Brasil, 70 anos
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