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A Dançarina e o Cego


Quero aprender a dançar. Como nasci ruim da cabeça e doente do pé, nunca aprendi a sambar ou dançar qualquer ritmo. O que sempre foi um crime para a minha esposa, que pacientemente tentou me ensinar, até o dia que desistiu, por receio de ficar sem os pés. Mesmo sabendo que tinha dois pés esquerdos e um jeito “gringo” de não ter jeito algum pra dançar, sabia que ela merecia o esforço, só precisava encontrar uma escola de dança de salão e tempo para fazer as aulas.

Um ano depois, quando eu já tinha esquecido que um dia prometi aprender a dançar, ouvi duas pessoas conversando no elevador sobre como a vida tinha mudado depois que eles aprenderam a dançar. Fingi que não era comigo, mas passei toda a segunda-feira pensando sobre aquilo. Planejei fazer a matricula numa escola de dança, até tinha encontrado um local bem bacana perto do metrô Santa Cruz, onde pego meu ônibus pra casa, mas as aulas não se encaixavam na minha agenda e acabei prometendo pra mim mesmo que aprenderia a dançar depois do fim de ano.Assunto resolvido.

No fim da tarde , sai do trabalho e corri contra o relógio para não chegar atrasado a minha meditação coletiva quinzenal, quando cruzei com uma senhora deficiente visual. Eu estava a caminho do metrô Vila Mariana, onde ocorreria a meditação, e a senhora vinha pela calçada, provavelmente em direção ao metrô também. Seguindo um impulso de ajudá-la, perguntei se ela precisava de auxilio para atravessar a rua até a estação. Ela aceitou com um sorriso.

- Ajuda é sempre bem vinda. – disse, segurando o meu braço.

Seguimos no seu ritmo, o que me preocupou, pois eu queria chegar na meditação mais cedo, preparar algumas músicas e atividades para o grupo, afinal não tinha tido tempo durante o dia; mas permaneci tranqüilo, e puxei assunto com ela.Seu nome era Marcela.

- E como foi o seu dia? – perguntei, enquanto passávamos por um posto de gasolina.
- Maravilhoso – Marcela respondeu – Eu fiz tudo aquilo que tinha planejado para fazer hoje.
- Que bom. – respondi, lembrando que não tinha feito nem um terço das coisas que tinha me proposto a fazer. – Acho que não posso dizer o mesmo.
- Que pena que o dia é tão curto, não? – disse ela – Mas se você tiver feito ao menos 10% das suas coisas por completo, já vai ter valido a pena.

Concordei, mas lembrei que tinha deixado esse “um terço das coisas” pela metade no trabalho. - Amanhã chego mais cedo e termino – pensei, enquanto parávamos na calçada, o sinal tinha aberto e os carros voavam a nossa frente.

- Estou vindo da aula de dança. – disse ela.
- Dança? – perguntei, surpreso com a coincidência – Que legal!
- É, estou matriculado nessa escola da St Cruz, e os professores oferecem aulas gratuitas para cegos. Os alunos que enxergam viram os nossos parceiros durante a prática. Confesso que o melhor é quando os ceguinhos dançam um com outro. – disse rindo - O resultado é incrível. Afinal, quem precisa enxergar para dançar? Basta sentir a música e deixar o ritmo te levar.

O universo só podia estar me sacaneando. Deus estava de gozação. Era coincidência demais. Era como se a vida através daquela senhora estivesse dizendo – Olha pra você! Tem toda a saúde do mundo, seus sentidos funcionam perfeitamente e você vive ocupado demais para concluir qualquer uma das coisas que planeja.

Só podia ser coincidência...

O sinal então abriu e atravessamos a rua. Quando chegamos do outro lado, uma senhora , segurando duas crianças, nos abordou e perguntou pra mim:.

- Por favor, o senhor sabe onde fica a Rua Vergueiro?

Eu sabia que ficava ali perto, mas não sabia precisar como ela chegaria até lá, saindo do lugar onde estávamos. Antes que pudesse responder, Marcela falou:

- Basta descer essa rua – ela disse, apontando a rua a nossa direita – e pegar a primeira à direita. A senhora terá chegado a rua Vergueiro.

Não ouvi a mulher agradecer, provavelmente ela estava tão surpresa quanto eu. O surrealismo cedeu lugar a estação de metrô e voltei a acreditar que eu a guiava e não o contrário.

Frank Oliveira
Enviado por Frank Oliveira em 30/11/2006
Código do texto: T306057

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Sobre o autor
Frank Oliveira
São Paulo - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Frank Oliveira