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As aparências enganam.

Abri o portão.
Saí e fechei-o com cuidado.
Precisava ir ao mercadinho no fim da rua comprar o pão.
Assim que desci pela calçada, deparei-me com o vizinho de bermudão verde e sem camisa, que também saia.
Estava de chinelos.  E trazia nas costas uma  tatuagem de uma cobra.
Na mão esquerda apertava algumas  moedas.
Na cabeça bem raspada tinha um corte já cicatrizado.
Os gestos com a cabeça pareciam fazê-lo agitado. Os braços  pareciam nadar em lago fundo. As pernas lembravam as árvores do cerrado. E aquele bermudão verde...caia como se não se importasse com nada.
"_É aí que mora o perigo"_ pensei.
Há poucos dias ouvi daquela casa um som estranho, barulho  de objetos que caíam, vozes abafadas...
_Um homem como aquele só pode ser um marginal! e morando  em frente de minha casa_ pensei e apressei o passo para encontrar-me  logo em frente ao mercado, mas parece que meus passos não rendiam. E o caminho ficava longo. E nessa luta, eu ía pela rua visualizando a cena do quebra-quebra de outro dia...e aquele homem era o protagonista, tudo  indicava. Em um breve momento senti que ele me percebeu logo ali, mas  fingi não vê-lo, olhei para o outro lado da rua, ainda deserta. Desejei que  o mercado fosse bem pertinho. Observava atentamente suas mãos e vi quando colocou a mão direita no bolso, estremeci. Tirou algo do bolso, que não pude ver e com gestos, já usando as duas mãos diminuiu o passo. Fiquei gélida, pensei em voltar correndo para casa, mas não dava, até minha porta já eram muitos metros e quando chegasse, até que abrisse o portão seria tarde. O jeito era adiantar o passo e chegar o quanto antes no mercadinho. Minhas pernas já não saiam do lugar como antes, doíam e meu coração batia rapidamente. Alguém   veio acelerando um carro e virou como um louco na esquina adiante, isso foi terrível, porque o homem que caminhava à minha frente virou-se e gritou: "Vá a p. q. p." Vi que a coisa era terrível e eu estava mesmo em perigo. Não sei mais quantas "Ave-Marias" eu rezei, nem quantos "sinais da cruz" me benzi. E ao mercado não chegava. O homem subiu o meio fio do mercadinho, entrou pelo corredor e foi pedir também o pão, como eu. Pensei em voltar bem rápido e esquecer o pão, mas algo não deixou que eu agisse, achei melhor esperar que ele saísse. Fiquei enrolando olhando outras mercadorias. Pedi o pão e ele já estava no caixa. Quando ele saiu, senti medo de ir embora, mas tinha que ir, paguei o pão e olhei pela rua e não o vi. Gelei até os ossos. Fui para casa, quando estava abrindo o portão uma mulher  toca minhas costas e diz: "Dona, meu marido disse que a senhora deve ter perdido essa bolsinha com algumas moedas, no caminho de volta do mercadinho, pois estava com muita pressa." Pasma, agradeci e olhei do outro lado da rua, lá estava o homem com um bebê nos braços, um leve sorriso e me acenando com a mão.
Entre, fechei o portão.
Lena Leal
Enviado por Lena Leal em 02/12/2006
Reeditado em 10/01/2012
Código do texto: T307684

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Sobre a autora
Lena Leal
Goiânia - Goiás - Brasil
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Lena Leal