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Ouvindo a música habitando nos seus pensamentos, tão antiga e com cheiro de fumo velho, como numa radiola esquecida na escuridão da noite, se misturando com o sabor iluminado das estrelas e do canto dos grilos falantes, o homem respirava, tão vivo, o puro odor da madrugada. E dançava consigo mesmo, com os pés descalços, sentindo as pequenas pedras da terras machucando a sua pele, fazendo movimentos, cortando o ar ao som da bela música imaginária. Porém, toda ínfima dor que sentia era felicidade, era alimento, prazer infinito, vida esfomeada. Insaciado, buscando cada vez mais pela felicidade inconformada, pela necessidade de continuar a música e não vê-la acabar desesperada, se machucava progressivamente, proposital, inconsciente.

A necessidade o escravizara. Sua consciência, dissolvida na escuridão morta da mente, já não protestava mais em voltar. E ele já não sentia mais mágica nas pequenas dores que provocava em si mesmo.

De repente, os pequenos pontos, infinitos e brilhantes no escuro, derreteram e fizeram do céu uma estrela só. E, como uma goteira numa casa velha, começou a chover vagarosamente; enxarcando o corpo nu do homem necessitado em sorrir. Cheirava diferente. Cheiro de vida recuperada, ardente, inflamável, fresca. Sem pensar, num ato instintivo, queimou um fósforo que havia deixado no chão e acendeu, em si, novamente a felicidade. Sentindo o calor do fogo queimando a sua pele, corroendo brutalmente as suas mãos, cegando os seus olhos, iluminando a sua mente, correu como um louco, desvairado de felicidade, sorrindo e chorando. Toda aquela dor se convertendo em alegria, seu corpo se despedaçando, iluminando o caminho por onde passava; e sua boca que não mais sorria, porque seu exterior não mais existia e agora só seu corpo carbonizado, jogado ao lado, ainda queimando, mas se sentindo ainda junto a ele, orgânico, mas impossibilitado de reviver. Sentiu-se arrependido da insanidade e começou a chorar. (A música, então, tocava mais alta, tão feliz e indiferente). E o homem, já uma fogueira em brasa caída, derramou lágrimas dos olhos derretidos; e tantas foram estas, que conseguiram apagar o fogo endiabrado que queimava até sua alma pobre sofrida. ~

Estava tão fraco e preto em cinzas que um pequeno sopro de vento lhe carregou a vida para longe.

(A música, com cheiro de fumo, alcançava os mais puros tons de felicidade para nunca mais se acabar.)

O FIM
Calor do cão
Enviado por Calor do cão em 02/12/2006
Reeditado em 13/12/2006
Código do texto: T307889
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Sobre o autor
Calor do cão
Salvador - Bahia - Brasil, 29 anos
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