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SE NUNCA COMEU JILÓ, COMO SABE SE É RUIM?

Devo ir logo dizendo de antemão que não sou chegada em televisão. Mas que fique entendido que isso já é uma evolução (ou uma involução, dependendo do ponto de vista), uma vez que eu não apenas não era chegada, mas totalmente avessa á telinha. Tem aquelas cuspidas que a gente joga pra cima e todo mundo sabe onde vai parar ...Mais ou menos por aí. Acabou caindo na minha vida um homem chegadíssimo numa TV. Principalmente a cabo. O que acabou me levando também a flexibilizar outras convicções.
Por exemplo, Coca-Cola. Meu filho, quando me via tomando a pretinha, já ia logo perguntando “Tá ruim do estômago, mãe?” , já que de acordo comigo mesma, a dita cuja só servia como remédio pra desentupir o caminho de quem exagerou no almoço. Bem, a idade é a dita faca de dois gumes: ou você cristaliza e fossiliza tudo que sempre pensou ou fica mais flexível e se adapta. Resulta que estou tomando Coca-Cola todo dia. Light, que aliás é coisa que eu sempre detestei. Mas com limão, que também não sou tão flexível assim.
Tanta TV com Coca-Cola acabaram abalando os alicerces das minhas convicções sobre os enlatados americanos. Já que vou ver TV, e que de acordo com meu amado, tem que ser a cabo porque aberta não há quem agüente (sou obrigada a concordar), inevitáveis os tais seriados. Acabo descobrindo que, ao contrário do que eu imaginava, alguns apresentam por detrás do banal, claros sinais de que há uma certa vida inteligente escondida nas tramas corriqueiras. Chega a ser possível até filosofar um tantinho sobre isto ou aquilo.
Onde eu quero chegar com esta prosa toda? Simples. Como a nossa resistência tem muito mais a ver com o que ouvimos o galo cantar e saímos repetindo do que propriamente com as nossas próprias opiniões. Tem a ver com o que vivo dizendo ao meu filho: “se você nunca comeu jiló, como pode dizer que não gosta?”.  Indo um tanto mais além no raciocínio, quanta coisa será que andamos perdendo por aí porque antes de comer, já demos o veredicto condenatório? Quanta coisa deixamos de ler porque algum crítico ou alguém acima de qualquer um diz que aquilo não presta? Quantas vezes deixamos de criar o nosso próprio julgamento sobre alguma coisa, porque é mais fácil e cômodo seguir a multidão e repetir em coro que isso  é ruim e aquilo é de mau gosto e por aí vai?
Eu não sei quanto a vocês, mas vou preferir continuar experimentando o jiló antes de dizer que é ruim. Aliás, adoro jiló.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 04/07/2005
Código do texto: T30936

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai