O URUBU, O AUTISMO, A RODA DA VIDA, OU SERÁ QUE CRIANÇA AUTISTA NÃO BRINCA DE RODA

silvania mendonça almeida margarida

As deficiências no funcionamento de um indivíduo causam não só dificuldades de aprendizagem, mas muitas outras situações diferenciadas em relação aos demais, como por exemplo, impossibilidade de se tornarem autônomos na própria vida.

Já as dificuldades de aprendizagem que decorrem de fatores que não são considerados deficiências, estes são distúrbios de aprendizagem, e de modo caracterizam-se justamente pelo fato de estarem presentes em indivíduos que não apresentam nenhum déficit em seus aspectos gerais de funcionamento.

O aluno autista é aquele que, por apresentar necessidades próprias e diversas dos demais alunos no domínio das aprendizagens curriculares correspondentes à sua idade, requer recursos pedagógicos e metodologias educacionais específicas.

O diagnóstico impreciso e a classificação dos indivíduos com autismo apresentam divergências frente aos especialistas da área. É necessária uma gama de especialistas para promover e entender cada passo do que seja o espectro autista. Um crescente número de profissionais rejeita diagnosticar o autismo, sugerindo que ao ser aplicado a uma pessoa, esta passa a ser tratada e, consequentemente, a reagir de acordo com o diagnóstico. Outros ainda consideram o diagnóstico e a classificação desumanizante, pois mutilam o relacionamento interpessoal, inserindo neste, comportamentos preconceituosos.

Embora a classificação possa servir a vários propósitos, para a ciência ela se presta fundamentalmente a:

a) organizar eventos que de outra forma poderiam parecer caóticos;

b) detectar relações ordenadas entre os eventos aparentemente isolados e

c) descobrir elementos despercebidos ou discrepâncias.

Por essa razão, apesar da crítica de vários estudiosos, muitas classificações são encontradas e podemos considerá-las válidas e necessárias para melhor compreensão de organização no estudo das necessidades especiais que bitolam o autismo.

Ninguém pode deixar de chegar

Enquanto não se atar

as pontas da existência

Não existirá o amanhã

Fico a imaginar as brincadeiras de roda pela vida afora. Quantas crianças autistas deixaram a roda da vida, uma vida de mais essência pelo preconceito do isolamento, pelas reações desordenadas de pessoas que não souberam inseri-las na roda da vida, na roda das brincadeiras infantis:

Fui na fonte do Tororó

Beber água e não achei

Achei bela morena que Tororó deixei

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Ou quando se cantava

Pai Francisco entrou na roda

Tocando seu violão

Balalão, bão, bão

E lá em vem seu delegado

Pai Francisco tá na prisão

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Quem dera a criança autista pudesse pelo menos ser inserida com músicas mais esquisitas que falavam de “urubu” e de “fedor”, mas dentro das rodas imaginárias da ilusão não estéril, da ilusão infantil de brincar. Que ele não ficasse lá sozinho, isolado, triste, minguado pela vida e pela sociedade que o estigmou, e pudesse cantar...

“Urubu veio lá de cima

Com fama de dançador

Urubu entrou na RODA

E NA RODA NÃO DANÇOU

Dança Urubu,

Não senhor

Por que Sr. Urubu

Eu tenho fedor

Talvez, se as crianças autistas pudessem falar o que lhe vai na alma, diriam: serei eu um urubu? Sempre isolado, embora alado e feliz? A verdade pode parecer cruel, mas muita gente acha que crianças com necessidades especiais só incomodam, só atrapalham a vida dos que se dizem perfeitos e “normais” . São crianças abandonadas, deixadas, desamparadas, pelas políticas públicas, pelo Estado e pela sociedade, embora muitos lutam para mudar este quadro triste e horrível. Mas são a minoria. Assim, a maioria das pessoas gostaria de ser pensada como “normal” ou “típica”.

E para milhões de crianças e adultos especiais isto não é possível. Eles foram identificados e foram etiquetados por escolas, agências de serviço sociais, e outras organizações como “excepcional”, assim requerendo serviços de “educação especial”.

No processo de aprendizagem podem ocorrer dificuldades, porque o indivíduo pode apresentar um potencial inadequado para aquisição das habilidades propostas. Neste caso, tem-se a causa da dificuldade é um nível de possíveis realizações abaixo do que seria esperado, caracterizando o portador de tal deficiência como “anormal” ou “deficiente”.

Mas, deixando de lado as minhas conjeturações, pois são de uma mãe que ainda procura, procura e procura respostas. Tenho a dizer que o bom-senso nos conduzirá por caminhos de justiça, de respeito às diferenças, aos objetivos da nossa identidade, desviando-nos das armadilhas de reformas estatutárias, pretensamente democráticas que porventura tentem, perversamente, tratar os desiguais que somos, com regras que ignorem a pluralidade ideológica, geográfica, econômica e social de cada município, de cada Estado.

Construiremos consensos e buscaremos educação de qualidade.

Por fim, em mais um exercício de liberdade democrática e inclusiva, mesmo que seja no quarto milênio, sem querer ser pessimista, o debate sobre a educação especial, nos programas de governo, cujos projetos estão em disputa nas próximas eleições será vislumbrado. Toda expressão na política da educação será convocado a se manifestar em Fóruns Extraordinários.

Como cidadãs e cidadãos teremos a responsabilidade de ouvir, debater, questionar e, sobretudo, de comparar, discursos e práticas.

Os Urubus não sabem bicar os sonhos!!!!!!!!

Os urubus não bicam crianças autistas, pois crianças autistas são SONHOS para seus pais especiais...e deveriam ser também para toda sociedade...

Talvez, um dia, a roda da vida e o autismo abarcarão discursos e práticas. Quem sabe os urubus continuarão somente voando no céu, bem alados e se alimentando de forma asseada.

A roda da vida eliminará a carniça e a podridão das minorias sociais e crianças autistas poderão bailar, cantalorar. Enfim dizer que têm o direito único e exclusivo de brincar de roda, pois a roda da vida lhe impuseram ser felizes.

Silvania Mendonça
Enviado por Silvania Mendonça em 21/07/2011
Reeditado em 27/08/2011
Código do texto: T3109329
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