Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

NUNCA ESQUECEREI

NUNCA ESQUECEREI

                            Rangel Alves da Costa*


Nunca esquecerei o dia que nasci, principalmente o dia que não morri. Nesse dia eu estava vivendo, lembro muito bem. Mas era uma vida desiludida, angustiada, solitária, quase sem vida, por isso mesmo não fazia muita diferença em ficar ou partir.
Nunca esquecerei a primeira lágrima nem a última. Por sinal, a última lágrima ainda se faz presente, tão lágrima e tão derramada que parece querer mesmo ser a última, afogando de vez uma vida num rio de mágoas.
Nunca esquecerei a manhã que ela disse sim e a tarde que ela disse não. Disse baixinho o sim, quase inaudível, quase num murmúrio, mas o não, dito no mesmo tom, ou talvez ainda mais baixinho, não sei por que mas continua ecoando tão alto que não posso esquecer um segundo daquela despedida de um lado só.
Nunca esquecerei o poema que enviei e a leitura que dele você fez. Eu dizia, rimando como podia, que teu corpo era lua que me aquecia e na minha noite adormecia, e você nunca mais olhou no meu olhar, e tudo porque achou que a havia chamado de mulher da noite.
Nunca esquecerei o perdão que não perdoei, o abraço que não abracei, o beijo que não beijei, a palavra que não falei, o gesto que não acenei, o presente que não lembrei, a companhia que não compartilhei, a ausência que não entendi. O egoísmo sempre foi um mal que carreguei, e por tanto fazer o outro sofrer, jamais me perdoei.
Nunca esquecerei os momentos tidos e não vividos, tantos caminhos para caminhar e o meu eterno ficar. Um dia, quando não suportava mais o mesmo lugar e quis apressadamente partir, não sabia aonde ir, não sabia nem ficar, quase não sabia mais viver.
Nunca esquecerei as flores que roubei do jardim, o ramalhete que fiz, a esperança colorida, os aromas do amor talvez, e da janela que nunca se abriu. Ainda guardo as flores murchas, ainda passo pelo jardim e pela janela, e tudo é uma vontade imensa de fazer tudo de novo onde você estiver, ainda que guarde comigo um monte de folhas secas, pétalas consumidas pelo tempo e aromas que só eu sinto.
Nunca esquecerei o amor que eu queria que você aprendesse a sentir, através das palavras de amor contidas em poesias jamais envelhecidas. Dei-te Cecília e Florbela, levei como presente Vinícius e Neruda e eu mesmo li Drummond e Shakespeare, li o canto e fiz o verso, mas depois você sempre dizia que aquilo era doce demais para o sabor que não sentia.
Nunca esquecerei de nós dois subindo a montanha, subindo na tarde, subindo no silêncio dos amantes, subindo na certeza de receber a benção do amigo Deus que morava lá em cima e nos chamava sempre. E ao chegar ao ponto mais e abrir os abraços, abraçar a vida porque Deus doava, você me disse em seguida que diante de tanta beleza éramos pequenos demais para merecer a felicidade. E quando desceu cumpriu no abandono o que disse na palavra.
Nunca esquecerei da manhã que acordei sem sol, acordei sem chuva, acordei sem manhã, acordei sem janela, acordei sem quintal, acordei sem jardim, acordei sem despertar, acordei sem janela, acordei para nada ter. E tentei dormir novamente na esperança que a tarde chegasse com o que eu tinha direito. Somente na noite é que as relembranças trazidas pela escuridão me fez reencontrar tudo novamente. E no dia seguinte nem acordei e já estava caminhando por aí.
Nunca esquecerei do primeiro banho de chuva que tomei, da dança que dancei na chuva, da alegria que a chuva trazia, do corpo inteiramente molhado e o espírito tomado das águas novas que a vida havia prometido. Verdade é que nunca mais choveu, mas sempre chegam as nuvens de temporal, as tardes de tempestade, as águas de qualquer hora. Só que nos meus olhos, bem nos meus olhos, feito correnteza.
Nunca esquecerei você. Já me esqueci de mim, mas não de você. Principalmente porque você disse um dia que ainda me fazer lembrar que existo.




Poeta e cronista
e-mail: rangel_adv1@hotmail.com
blograngel-sertao.blogspot.com
 
Rangel Alves da Costa
Enviado por Rangel Alves da Costa em 11/08/2011
Código do texto: T3152907
Classificação de conteúdo: seguro

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Rangel Alves da Costa
Aracaju - Sergipe - Brasil, 54 anos
8036 textos (189931 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/08/17 16:16)
Rangel Alves da Costa