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PANELA QUE PRECISA AREAR, NUNCA MAIS !



Atravessar parte da cidade para chegar em casa nesse trânsito caótico é osso duro de roer.
Além do trânsito infernal, existe a insegurança que corre solta pelas ruas de São Paulo. Acontece desde sequestro relâmpago, até aquele com direito a cativeiro, que nunca é em acomodações tipo cinco estrelas.
No caminho a parada básica no supermercado, para três ou quatro itens, que estão faltando, mas que acabam virando dez.
Enfrentar a fila do caixa, e rezar para não pegar uma funcionária iniciante, que passa um produto com preço certo, enquanto erra três.

Essa tal vida moderna, está uma lastima.
Saudade do tempo de minha avó em que as mulheres não tinham carro, não sabiam o que era transito, nunca levaram um filho pra escola, eles iam sozinhos. E ninguém nem sabia o que significava na prática, a palavra sequestro, assalto ou roubo.
O máximo que conheciam sobre roubo, era o caso de certa vizinha que havia tomado o marido da outra.

Outro dia, inventei de por em uso uma panela da idade da pedra, que nem sei porque, estava guardada no armário.
Deixei de lado o jogo supimpa da marca "Cuisinart", que trouxe da última viagem, e embarquei na nostalgia de usar a velha panela, cheia de história.
Só não me lembrava o trabalho que dava arear a dita cuja, depois de usada.
Que sufoco pra vê-la brilhar.
Quer dizer, ver, não vi, pois quando percebi que ela não limpava, com essas esponjas de lado abrasivo, não tive dúvida, convidei-a a se retirar de minha cozinha.
Como ela não se mexeu, eu mesma a coloquei pra fora. A diarista se interessou por ela, e hoje ela deve estar reluzindo na cozinha dela, que é muito caprichosa.

Me lembro que há uns quinze anos atrás fui à Belo Horizonte visitar amigos queridos. E fui convidada a almoçar na casa da mãe da amiga que me hospedava.
Quando entrei na cozinha, alem do cheiro delicioso do tutu de feijão que ela preparava, o que me chamou a atenção foi as dezenas de panelas muito bem arrumadas em prateleiras, que brilhavam mais que o sol que fazia lá fora. A mãe de minha amiga me contou que uma vez por mês, passava o dia inteiro areando suas "joias de estimação", com uma mistura de areia de rio com sabonáceo, e o conhecido bom bril.
Lembro-me que pensei: Valha-me Deus, se eu precisar fazer isso pra ganhar a vida, acho que vou ficar em apuros.

Constato que a vida nunca foi fácil.
No tempo de minha avó, em que se lavava muita roupa debruçada sobre uma pedra no rio. E voltava com a trouxa na cabeça, usava-se essa tarefa pra fazer terapia, pois, elas não compartilhavam somente a água do rio, como também, os problemas da vida de cada uma.
Ao se debruçar sobre a pia da cozinha para arear todas as panelas com sabonáceo, até que ficassem parecendo um espelho. Faziam nessa tarefa exercício de musculação, pois aja braço até que as panelas brilhassem!

Hoje, a máquina lava, toda nossa roupa, sem esforço da nossa parte, mas muitas de nós perdeu esse momento de terapia gratuita, que nossas avós tinham.
Trocamos a musculação na tarefa de brilhar as panelas, pelas exaustivas aulas de musculação.
A vida vai mostrando que nunca deixamos de ter desafios, eles só mudam de formato.
Ai estamos nós hoje, sem saponáceo, sem panelas pra brilhar, mas, com trânsito infernal pra enfrentar, e tantos perigos a que estamos expostas.

Se a troca pra essa modernidade valeu a pena?
Não sei avaliar !
Mas sei que de panela troquei definitivamente, a última antiga, que tinha que dar brilho, não tenho mais, agora só mesmo as modernas, coloridas por fora, e com revestimento interno.



Lenapena
Enviado por Lenapena em 11/08/2011
Reeditado em 09/11/2011
Código do texto: T3153023
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Sobre a autora
Lenapena
São Paulo - São Paulo - Brasil, 64 anos
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