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Vai sair hoje?

O ano era 1987. O local, o pátio de um colégio cinzento, onde adolescentes jogavam bola, conversavam ou ficavam parados, em silêncio, ao redor das quadras de vôlei, peteca e futebol, esperando terminar o horário da Educação Física. O tempo não passava naquele colégio. Cada aula parecia durar uma eternidade, e quando o último sinal tocava, eu ia embora, feliz da vida, pensando: “Agora eu vou fazer o que eu gosto”.

Mas no pátio daquele colégio triste, numa manhã de quinta-feira do ano de 1987, uma adolescente baixinha perguntou à sua colega: “Você vai no BEB&RANGO no final de semana?” E a outra respondeu: “Acho que vou”. As duas tinham doze anos e já “saíam”.

Sair. Este era o verbo mais chique daquele pátio, pois significava “Eu aproveito a vida, sou importante, faço parte da sociedade”: “Eu saio”. E no BEB&RANGO, ao final da tarde (não sei se de sábado ou de domingo), aquelas meninas ficavam andando pra lá e pra cá, de narizes empinados, rindo e conversando com os garotos mais velhos, de 16, 17 ou 18 anos, se achando o máximo dos máximos.

Aos 12 anos eu não saía. Nem aos 13. Nem aos 14. Até o início da década de 90 eu praticamente não existia para o mundo exterior, somente para a minha família, que às vezes se preocupava com o fato de eu ser tão introspectivo, tão mergulhado em meu mundo interior: este sim maravilhosamente turbulento e confuso, cheio de cores, ao contrário do universo desbotado e distante daquele colégio e daquele bar tão popular em Pará de Minas na segunda metade da década de 80.

Não sair significava não existir, não viver. “Você não sai, não aproveita a vida”, costumavam dizer. Eu ouvia isso, mas não entendia, porque eu vivia e aproveitava a vida intensamente, do meu jeito. Meu maior prazer, quando eu me via livre daquelas aulas insuportáveis, era a leitura. Eu praticamente lia um livro por tarde, deitado no grande sofá da sala de visitas da minha casa, sem ninguém para me incomodar. Eu me desligava do mundo exterior e mergulhava nas histórias com um prazer imenso, avassalador. Eu sentia minha alma pulsar, agradecendo aquelas palavras e frases que me conduziam por cenários incríveis, em histórias emocionantes, contadas por mestres como Marcos Rey, Lúcia Machado de Almeida, Stella Carr, Júlio Verne e Agatha Christie.

E no início dos anos 90, quando eu descobri autores como Rubem Fonseca e Edgar Allan Poe, e me recusava a trocá-los por uma saída no Geraldinho sábado à noite, a pressão para eu sair aumentou, porque eu TINHA que beber, TINHA que ficar com as meninas e provar um monte de coisas para um monte de gente. E eu saía. E era como voltar àquele colégio e ter que assistir sem vontade àquelas aulas inúteis de Danças e Teatros, Educação Moral e Cívica, História e Português. Cheguei até a ficar com algumas meninas, mas quando isso é feito apenas para cumprir uma obrigação social, é ruim, não dá prazer.

Isso acontecia no antigo Bar do Geraldinho, na rua Coronel Domingos, onde a juventude se encontrava pra ficar parada na rua e nos passeios bebendo em pé e vendo os carros passarem cantando pneu e fazendo fumaça com o som no talo: mais ou menos o que acontece hoje no Stop & Shop na sexta à noite. Quando eu sentia que minha obrigação tinha sido cumprida, eu saía de fininho, e ainda aproveitava um restinho da noite em casa, assistindo a alguns programas e filmes da madrugada.

Com relação a isso, minhas angústias só terminaram em 1992, quando eu comecei a namorar uma menina mais velha, na CEDAF, em Florestal, onde a gente estudava (eu tinha 16 e ela 26), e ela me apresentou à obra do escritor anarquista Roberto Freire, que mudou a minha vida: “Cleo e Daniel”, “Ame e dê vexame”, “Sem tesão não há solução” e “Coiote”, livros que me mostraram a beleza de ser aquilo que você realmente é, de corpo e alma, sem se preocupar com o que os outros pensam de você. Em 92 e 93 participei de palestras e oficinas do grupo SOMA, fundado pelo próprio Roberto Freire, e aprendi a me conhecer melhor e a valorizar mais minha originalidade única, ligada ao meu prazer de ser e estar no mundo.

Minha vida melhorou muito depois disso, mas hoje penso que a utopia anarquista de uma sociedade totalmente livre de qualquer forma de poder e opressão é um sonho impossível. Somos escravos de uma série de convenções e regras sociais, que nos impedem muitas vezes de sentir o verdadeiro prazer de existir. Tais regras são tão implacáveis, que a gente acaba criando para nós uma felicidade artificial, baseada em coisas efêmeras, como “ter aquele carro”, “ter aquele notebook”, “ter aquele cargo”, “ter aquele apartamento”, “ter aquela aposentadoria”, “ter aquele corpo sarado”, “ter aquela mulher gostosa”, “ter aquela mulher rica”, etc., enquanto a nossa originalidade única, a nossa natureza e o nosso prazer (autêntico, verdadeiro) vão ficando em segundo plano, até desaparecerem quase por completo sob o peso da ideologia burguesa e de sua frase mais emblemática: “O importante não é fazer o que se gosta, mas gostar do que se faz”.

Só que a gente raramente se dá conta de que esse último “gostar” da frase é, muitas vezes, uma criação artificial, que apaga o nosso ser verdadeiro, o nosso tesão de existir.

Prefiro a frase do Caetano: “Um porto alegre é melhor que um porto seguro para essa nossa viagem no escuro”.
Flávio Marcus da Silva
Enviado por Flávio Marcus da Silva em 11/08/2011
Código do texto: T3153136
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Sobre o autor
Flávio Marcus da Silva
Pará de Minas - Minas Gerais - Brasil, 42 anos
282 textos (5948 leituras)
9 e-livros (112 leituras)
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Flávio Marcus da Silva