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Garotas que lêem nuas.

                                         
                          GAROTAS QUE LÊEM NUAS

O cara era um escritor que nem fracassado era, pois o fracasso vem depois da fama. Minervino nunca chegou à fama, nunca foi lido, nem pelos familiares. Viera da época que para se pôr no papel tinha que ser à máquina. Minervino comprou uma Olivetti Lettera 22, portátil, e datilografou todos os rascunhos.
O tempo foi passando e veio então o computador. Minervino teve que digitar todo o datilografado  no Word Pad, pois ainda não havia o tal scanner.
Digitou.
Quando saía à rua levava uns dois ou três disquetes nos bolsos na esperança de que algum amigo aceitasse fazer um download para si. Que nada. Os conhecidos arquivavam os tais disquetes era no lixo.
O tempo foi passando e a IBM caprichando no ramo da informática e eis que um dia navegando pela Internet, nosso intelectual descobriu um site no qual as pessoas expunham suas obras. O nome do tal web era, se não me falha a memória, “Recreio das Letras”, ou coisa parecida. Minervino enviou sete mil escritos seus para lá. Nunca ninguém, de propósito, abriu uma folha sequer de sua criação. Os poucos que visitavam era por engano buscando outra coisa na Internet.
Cinco anos e só noventa e nove visitas.
Um dia, naquele papo cabeça das sextas-feiras no boteco próximo à repartição, o Josué entre chopes e sardinhas fritas contou que no edifício em que ele morava, os homens iam à janela invariavelmente às dez da noite ver a vizinha do prédio defronte ler seu livrinho básico.
Tal Ibope se devia ao fato que a cidadã em epígrafe lia os seus livros, completamente nua.
No dia seguinte Minervino vendeu na feira do Boullevard 28 de Setembro o seu carro do ano e financiou a compra de um Website.
Como dinheiro não era problema, para gravar todo o seu trabalho em vídeo contratou as primas da Casa da Luz Vermelha  atuando sentadas numa poltrona, ou andando de lá para cá, de frente, de costas e de regorjégio.
Nuas, nuinhas. Completamente peladas.
Sucesso, sucesso, sucesso.
Quando a Justiça quis tirar a coisa da Rede, seus advogados entraram com uma Ação de Injunção junto ao Supremo, alegando que a Carta Magna era omissa em nudez literária. Um Ministro pediu vistas ao Processo e nunca mais ele entrou na pauta. Com a anterior liminar deferida, Minervino continuou o engenho e a arte.
Um dia – acontece - quando o já milionário escritor botou o pé fora da porta daquela mansão na Barra da Tijuca, apareceram aqueles caras de preto e óculos Ray-Ban (mesmo sem sol) que educadamente sentaram-no no banco de trás da caracterizada, e de lambuja jogaram seu motorista, algemado, na caçapa.
Nada a ver o motorista ser pobre e negro.
Dali foram para o Aeroporto Santos Dumont; o motorista seguiu para averiguações rumo a DP da Praça Mauá e  o nosso escriba, de avião, para Brasília.
Em lá chegando foi levado à presença do responsável pela propaganda oficial do Governo, nome que lá dão para o marqueteiro-mor da presidência.
Foi então que Minervino ficou sabendo que não estava preso e sim gentilmente convidado para vender participação em seus direitos autorais para que a União utilizasse a criação para a transmissão, em conhecidíssimo canal televisivo aberto, de um programa oficial.
E foi desse jeito que “A Voz do Brasil” passou a ser líder de audiência em todo o território nacional, e no mundo.
A coisa foi quase toda calcada no jeito que as garotas já faziam suas crônicas na Internet, apenas com um pequeno toque de mestre: ora a locutora daquele dia lia o texto e o locutor daquele dia virava as páginas; ora o locutor lia e a mocinha virava as folhas.
Nus.
Nem o Lula, nem a Dilma, quando governantes, bolaram tão grandiosa estratégia de market.
Até hoje as demais emissoras de televisão estão brigando na Justiça para derrubar a exclusividade da Vênus Platinada.
LOTT
Enviado por LOTT em 16/08/2011
Reeditado em 11/08/2012
Código do texto: T3162634
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
LOTT
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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