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A viagem...

             Os três amigos haviam combinado com Renata que os aguardaria na praça principal de Curvelo.
Como não havia lugar no mesmo ônibus, Ricardo iria sozinho, enquanto Joãozinho embarcaria com Cremilço.
Aqui, permito-me um aparte: Curvelo – a 42 km da capital – convidava-o ao passado e o lançava na literatura de Guimarães Rosa e seu “Grande Sertão”.  Era como se todo o universo de aventura e amor proibido o invadisse de súbito e o transformasse em um sertanejo contumaz, amalgamado por seu magnetismo e fascínio. Fugere Urbem!
Em função da viagem curta, o trajeto de Belo Horizonte até lá fora sem atropelos. Ao chegar, seus olhos avistaram, extáticos, a silhueta deslumbrante de sua musa Diadorim:  uma bela mineira, não alta nem baixa, 1,65 m talvez, lindos olhos negros como ameixas de manjar, cabelos anelados, escorridos pelos ombros nus, unhas feitas e perfeitamente preparadas para arranhar-lhe o ego macho, pele sedosa e fresca como orvalho redentor, um perfume tão inebriante que inveja as doces flores de néctar intocado.
Nem um, nem dois: três beijos, hipérbole sensual, selaram o reencontro. Sentaram-se num banco da Praça Benedito Valadares – de magnífica arquitetura futurística – a fim de aguardarem a chegada dos outros, que a essa altura, pensava Ricardo, poderiam trilhar outros destinos, o seu já o escolhera. Enquanto esperavam, nosso mais novo personagem roseano tentava sutilmente aproximar-se de sua princesa libertadora.
Como o ônibus atrasaria, em virtude de um incidente na estrada, sua musa o levou para casa. Quando atravessavam a rua, um carro em alta velocidade quase os atropela. Ricardo, ao perceber a manobra descabida do motorista, empurrou Renata para a calçada, evitando um acidente fatal. Ainda nervoso e assustado com o que acabara de ocorrer, ouviu a história do recente fim do noivado de sua amiga e pôde experimentar a ira de um noivo ainda  inconformado.
Curvelo, O Portal do Sertão, Terra dos Coronéis, dos coronéis das Veredas – pensou.
Já se preparavam para jantar, quando entram os outros dois. Joãozinho esbravejava, xingando palavras impublicáveis,  dirigidas a Bebum que fingia não se importar. Depois de alguns instantes, ele começou a narrar a vergonha que passara durante a curta (?) viagem.
Cremilço, ainda bêbado, começou a mostrar evidentes sinais de paranóia e a todo o momento pedia ao motorista para parar o coletivo, já que sua “garganta colara e precisava urgentemente beber alguma coisa”. Como não houvesse nenhuma parada programada, o homem continuou em frente. Entretanto, alguns passageiros, penalizados com as caretas e firulas que o anti-herói fazia, interpelaram o pobre condutor, que a essa altura era chamado de desalmado, e pediram-no que parasse no primeiro boteco de beira de estrada que avistasse. Dois quilômetros à frente, o ônibus pára, e o paciente motorista recebe os aplausos calorosos dos outros passageiros.
Para espanto geral, todos, olhando pelas janelas, se estarreceram com o pedido de Bebum:
- Me traz uma cervejinha!
(...)
Somente depois de muita conversa e mil pedidos de desculpas, Joãozinho conseguiu conter a turba, pronta a linchar o ilustre beberrão.
Bebum, acomodado em sua poltrona, aparentemente alheio a tudo a sua volta, vira-se num rompante e profere:
             -  Não entendo a revolta!
             E arremata:
             - Vocês não sabem curtir a vida...
             Recebeu um soco demolidor e apagou!
Nel de Moraes
Enviado por Nel de Moraes em 07/07/2005
Código do texto: T32046

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Sobre o autor
Nel de Moraes
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 56 anos
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2 e-livros (297 leituras)
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Nel de Moraes