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PAUSA NA MULHER INGRATA

Ainda há pouco tive uma conversa de pé de ouvido com um velho conhecido meu: o Diabo. Exatamente. Aquele dos chifres e olhos vermelhos que anda há séculos pelo imaginário popular. Ao contrário do que se diz, ele é até muito bem apessoado, se tem chifres deve ser daqueles de rosca que se tira quando quer e não, não fala palavrões. Antes, tem um vocabulário exemplar. E, devo dizer aos mais cautelosos ou muito religiosos, não é algo preocupante conversar com este cavalheiro. É bom informar que, neste aspecto, ando em excelente companhia. Se não, vejamos: Jesus Cristo, em algumas passagens bíblicas, teve lá seus diálogos com o Maléfico. O próprio Senhor dos Céus, o Todo Poderoso, o Onipotente, Onisciente e Onipresente Senhor Deus andou participando bondosamente de um belíssimo exercício de retórica com o Demo num conto de Machado de Assis (alguém aí leu “A Igreja do Diabo” ou ficou só no Dom Casmurro? Se não leu, não sabe o que perdeu). Rubem Alves, respeitadíssimo  cronista dos nossos dias, tem conversas freqüentes com o dito cujo. Assim, creio que estou, a estas alturas, perdoada por minha heresia. Mas a verdade é que o Senhor dos Infernos não anda lá muito satisfeito com a minha humilde pessoa.
Trata-se este Mestre do Mal, ao contrário do que se divulga, de criatura totalmente avessa às táticas de marketing e publicidade. Não gosta de ver o seu nome por aí cantado em verso e prosa. Prefere apresentar-se modestamente por detrás das atitudes de seus seguidores, que , não é preciso dizer, são muitos. A questão é que ele tem acompanhado as peripécias de nossa amiga, a Mulher Ingrata e do convívio da moça com um certo Diabo, integrante das legiões do Demônio Maior. E se sente profundamente injustiçado.
Segundo ele, está ressentido – e muito -  com o rumo que ando dando para a história, tirando de seu pequeno amigo a responsabilidade gloriosa pela miserável vida da moça, e dando a ela todos os louros por ter transformado a própria vida num Vale de Lágrimas. Disse-me ele com todas as letras: “Você sabe que não trabalho com propaganda. Desagrada-me sobremaneira a forma como certas Igrejas atribuem-me enormes poderes. Não que não os tenha, mas a propaganda termina por espantar os eventuais candidatos ao Inferno pelo temor que lhes vai sendo enfiado goela abaixo, pintando-me mais feio do que realmente sou. Trabalho com resultados. Sou uma criatura de resultados. Minha melhor propaganda são os resultados obtidos por meus assessores. E aí vem você, que nem me segue e nem me persegue, e joga todo o mérito sobre sua personagem Ingrata, que até freira já andou sendo nestas histórias? Não, definitivamente não está sendo nada justo com meu trabalho de séculos...”
Estive pensando muito sobre nossa pequena  conversa – sou uma criatura aberta às críticas – e cheguei à conclusão de que , de fato, preciso ser justa com o bom trabalho do pequeno Diabo com quem convive minha Ingrata amiga. Tentarei nos próximos episódios de sua história não trazer para ela toda glória e merecimento pelas misérias que ainda há de viver antes de sair do Inferno. Mas, devo argumentar consigo, Mr. Devil, que a Criatura, como já foi dito, quando discípula tenaz e dedicada, e depois de sofrer no chicote de seu algoz por longo tempo, torna-se muito melhor que o Criador...Assim que, de agora em diante, minha amiga vai pintar os diabos, digo, vai aprontar todas, mas cheia de boas intenções.
E, por favor, também não venha querer alegar que de boas intenções o Inferno está cheio. Assim não dá pra contentar ninguém.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 11/07/2005
Reeditado em 11/07/2005
Código do texto: T33021

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai