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Profundidade.

Da janela dá pra apreciar toda a vista que se estende da grade até o próximo prédio. A rua entre as duas calçadas, a maior parte coberta pelas árvores, acolhe os vendedores ambulantes, as vagas de carros, bancas de jornal e mesinhas de lanchonetes que vendem sucos como principal produto.

Pelos quadros pendurados na parede podemos ver que a vista de antigamente era um tanto diferente, telhados infindáveis, visto de cima de algum morrinho ou elevação. Muitas vezes de alguma casa de dois andares. A vista de estendia um pouco mais e o céu e os morros maiores eram vistos à distância. Como uma boa vista para o céu.

Ao iniciar meus estudos sobre arte constatei que antigamente a vista era de mesmo nível da anteriormente descrita, mas com muito mais verde, árvores, pastos, animais, estradas de terra batidas. Muito menos agitação, menos veículos, de algum modo mais saudável, tanto física quanto mentalmente.

Não consigo parar de pensar no quanto poderíamos viver parecidamente com essas três vistas diversas, com todas as suas qualidades e amenizando seus defeitos. Visto as vastas distâncias de terra que temos disponíveis não usadas. Resolvemos nossos problemas empilhando prédios um ao lado dos outros, e esses cada vez maiores em tamanho bruto e menor nos tamanhos individuais. Vivemos em caixinhas de fósforo. Iluminadas pelas televisões em cada cômodo. Temos academias, mas não subimos escadas. Temos curso de ioga, mas brigamos pelo canal a ser assistido. Viajamos para longe, mas não conhecemos bem nossos próprios pontos turísticos.

Vou ter que ensinar a meu filho a andar em ruas, o limite do perigo é o meio fio. De lá não se pode passar, só quando se estiver grande. O limite do desejo é a vitrine, não se pode pegar o que lá tem, só com dinheiro e só se tem dinheiro quando se estiver grande. O limite da vida é aqui, onde podemos ir com nosso dinheiro, e dinheiro...

Vivemos nesse estresse mental. Ouvi certa vez da experiência de alguém, acho que foi em um filme, que passou uma temporada num país do Leste Europeu. A coisa mais marcante que ela reparou foi à falta de Outdoors, Busdoors, anúncios. Essa paz mental foi ressaltada como um ponto forte. Só há você e a cidade. Mais a frente isso passou a ser um problema, só você e a cidade, falta um limitador dessa coisa. Não estamos acostumados a viver em um lugar real. Vivemos da imagem dele.

Terei que ensinar a meu filho que na vida tudo parece, mas nada na verdade é. A vida não é comprar uma pasta de dentes e ser feliz. Não é ter um celular que tira foto para ser bem sucedido.

Terei que mostrar como a vida era antigamente, e torcer para ele compreender o espírito daquela época, alcançar a idéia da inutilidade das coisas, que nos é forçadamente proposta do modo inverso. Tudo é útil até que se compre, depois vira obsoleto.

Terei que ensinar aos próximos seres que aqui entrarem que como a arte egípcia era totalmente plana, mas servia bem aos seus propósitos, nossa época também é totalmente plana, bastando, para conquistá-la, ser capaz de ver a dimensão. Ver a profundidade das coisas. “Mas pai, isso não tem profundidade!”

“Então, meu filho, isso não é necessário.”
leandroDiniz
Enviado por leandroDiniz em 11/07/2005
Código do texto: T33060
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Sobre o autor
leandroDiniz
Niterói - Rio de Janeiro - Brasil, 34 anos
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leandroDiniz