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A vida que balança o berço

Rosy Beltrão

De onde ele vem, o berço é  feito de jornais velhos sua primeira vez ao olhar o mundo tudo é escuro e impregnado de um péssimo olor, do teto uma pingadeira, um feixe de luz.
Na cama da mãe uma cruz pregada com o Homem Jesus.  A vida sobrevive mesmo que a alimentação do corpo necessite de outros  cuidados, mínimos de atenção no preparo de uma alimentação que o deixaria imune a doenças, o leite do peito já foi porque a mãe não se alimenta o suficiente e está a maioria das vezes em outra balada...alada a imaginar um mundo distante.
Esquece-se dele em qualquer lugar, pede  a alguém para olhar ou deixa simplesmente ele onde está. No dia seguinte é que vai se lembrar que ele não comeu, não trocou as fraldas, não tomou banho. E assim a vida vai dando a ele a forma de sobreviver apesar de todos os incômodos que tem de passar horas a fio,  com frio a lhe bater no doce sorriso do olhar. Vai crescendo e olhando os outros aprende a andar, já não precisa de fraldas, se sustenta em pé, vai até a vizinha em busca de um pão porque em casa é rara essa situação. Nunca tem nada para comer, só para beber. Aprende a se virar igual a cachorro de rua, que vê uma bolacha na mesa e pula para alcançar, pega, come-a devagar saboreando o seu único jantar em baixo da mesa, num canto escondido onde aprendeu a ficar.  Não ouve mais a gritaria da mãe e um estranho a brigar. Já nem olha o que acontece do outro lado do quarto, ela parece que não liga, fica desligada e bebe junto com o homem que trouxe aquele dia para casa.  Pai? Acho que ele nunca soube ou irá saber quem é. Sabe da mãe, aquela mulher...
Que entre gritos e risadas com o som no último volume, bebe sem parar até o sol raiar e ele descansa dormindo em qualquer lugar. Um dia acordou com a pingadeira do teto de zinco era melhor dormir lá mesmo, embaixo da mesa feita de tábua com pregos semi pregados, que muitas vezes o arranharam. Aprendeu a bater a lata até eles não mais o machucarem.
Ele cresceu, virou "aviãozinho" porque é mais fácil dizer para a mãe: "- Olha aqui seu rico dinheirinho". E ela fica calada. Nunca diz nada, nem uma palavra de amor ou desamor só o dia que passa assim como for... claro ou escuro ele mora no barraco, dorme ainda embaixo da mesa se encolhe e escolhe uma manta para se cobrir. Agora pode comprar tênis novo, um som legal e umas bermudas da hora!... Porque arranjou um jeito maneiro de se virar. A vida para ele balança, entre um e outro varal, onde se esconde quando vem a polícia ou o agente federal. Ele nessa atitude inerte, até parece que é um anjo. O tal cara, passa batido e nem atenção ele consegue chamar tem rosto de menino, ar de bonzinho e é com um sorriso que olha a vida a balançar. Entre um tiro e outro de fuzil, não sabe a quem recorrer se bandido ou mocinho, o melhor é fugir.
É um anjo perdido, um dia irá se encontrar de um lado ou de outro poderá escolher que caminho seguir. Na corda da vida, ele se agarra e se salva a cada instante mesmo com todo mundo distante, sobrevive!
Futuro? Não sabe,  nem imagina o que é isso... Come hoje, bebe hoje, fuma hoje, amanhã, sabe-se lá.


11:25 h 25/11/2004



Rosy Beltrão
Enviado por Rosy Beltrão em 30/11/2004
Reeditado em 06/10/2008
Código do texto: T338
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Sobre a autora
Rosy Beltrão
Estados Unidos, 62 anos
155 textos (31370 leituras)
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Rosy Beltrão