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MULHER INGRATA XIII: A PERGUNTA PERIGOSA

Na minha terra tem gente que diz que “vergonha é roubar ... e não poder levar”.  Uma Mulher Ingrata, Pensante e Esperta faz uma pequena adaptação e junta com isso o famoso “bater e esconder a mão”. Depois de fazer greve do balaio fechado e aplicar uma “limpeza orgânica” à base de óleo de rícino no seu Diabo de estimação, a atitude mais inteligente é ficar bem quietinha, fazer cara de santa e, usando a lição aprendida com ele, recuo estratégico. Isso significa: tratar de ficar meiguinha, responder sempre “sim, meu amor” pra depois fazer tudo do seu próprio jeitinho sem ninguém saber e continuar no seu processo de instrução baseado nos livrinhos de mocinhas igualmente safas.
Evidentemente, depois de um período de rebeldia inexplicada, o melhor procedimento é adotar, cautelosamente, a cara de Madre Tereza, sempre dedicada e devotada. Não é fácil, porque a estas alturas, a moça já está pelas tampas de dizer “amém” aos comandos do Inferno, mas faz parte de uma estratégia muito conveniente enquanto não se pode chutar o pau da barraca e o do Diabo também, que ela chutaria com prazer só pra ver os urros de dor. Neste ponto da novela das oito em que se transformou sua vida pessoal, já se vê que aqui não há mais amor e nem tão pouco relação, palavra muito em moda pra definir quem está junto mas não tá nem aí mais para o travesseiro que ronca a seu lado. O que há aqui é um jogo. Um jogo de xadrez, com movimentos milimetricamente calculados, com a observação de cada movimento do outro lado, com a previsão do próximo movimento do adversário. E jogar xadrez com o Diabo não é, nem de longe, uma tarefa simples. E esta moça nunca foi boa jogadora. Por isso sofrer as penas do Inferno e ter comido tanto pão amassado pelo rabo do Demo. Mas o ser humano é altamente adaptável. Aprende de tudo pra sobreviver. E ela precisava sobreviver. Lembrando a Elis, “vivendo e aprendendo a jogar”.
A vida fora de casa e dentro dos livros consumidos com uma fome canina, a vontade de superar tudo e a si mesma e a contínua pressão sofrida dentro daquilo que acostumou a chamar de casa, fizeram dela uma jogadora. E ela aprendeu a hora de bater e a hora de recuar. Só que a força alimentada pelos descasos, pela agressão emocional constante, pela falta de atenção e carinho tem proporções que pouca gente pode imaginar. São lições que só se aprende na prática, digo, debaixo de porrada. Não estão em manual algum.
Depressão foi uma palavra que ela passou a conhecer com todos os detalhes que a medicina podia dar. Listas e listas de medicamentos foram testados. Mas a terapia e os livros lidos para tentar driblar a depressão foram ensinando a ela o caminho para si mesma, a atravessar seu inferno interior e derrubar seus demônios pessoais antes de enfrentar o Diabo do lado de fora. E ela começa a bater pesado.
De repente, numa das pancadas, o Diabo, em pausa estratégica, veste a pele de anjo, assustado com as mudanças e solta a pérola:
- Não sei o que está acontecendo com você. Onde está aquela criatura tão linda, meiga e cordata que cuidava de todos nós com tanto carinho?
Resposta pronta:
- No consultório do psicólogo ou quem sabe no caixão em que você enterrou, há muito, os olhos de sol que soltaram aquela mulher...Esta aqui não lembra mais como é ser tratada com respeito. E devolve igual.
- Sei não...melhor deixar estes tratamentos de lado. Gostava mais de você deprimida...
Meigo isso, não? “Você fica bem melhor deprimida...”  Aquilo que poderia ser o golpe de misericórdia no resto de auto-estima e derrubá-la definitivamente, acabou acendendo uma luz na pequena parte de consciência que voltara a funcionar. Este é o tipo de comentário, senhores que me lêem, que faz retornar feito furacão a perigosa pergunta que nunca mais irá se calar e irá detonar um processo em dominó que desmontará, em algum momento, com o castelo de cartas demoníaco: “O que é que eu estou fazendo aqui?” .
Recomendo veementemente a todos os seres do sexo masculino e candidatos potenciais a Diabo que jamais, em tempo algum, façam ou digam o que quer que seja que possa fazer surgir esta pergunta na cabecinha de suas vítimas. Já dizia uma propaganda antiga, que adaptaremos ao assunto em questão: “Não use suas palavras como arma. A vítima pode ser você.”
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 13/07/2005
Reeditado em 13/07/2005
Código do texto: T33848

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai