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É PRECISO SER INGÊNUO. OU MUITO BESTA.

Houve um tempo em que ela não sonhava, não fazia castelos no ar e também não permitia que a incluíssem em castelos alheios. Não tinha vocação pra princesa e tinha seus próprios projetos. Aqui, cabe uma observação, se você acha incoerente dizer que ela tinha projetos se não tinha sonhos. Há uma ligeira diferença entre as duas coisas. Sonhos são exatamente isso: sonhos. E pertencem a um mundo lírico, onírico e pouco prático. Projeto é um sonho com alguma chance percentual de virar algo material e concreto. Moça prática, fazia bem a distinção. Posto isso, não vivia grandes paixões, tampouco grandes sofrimentos. Parece bem.
O tempo passa e as pessoas mudam. Achou falta de sonhar um dia. Deu pra sonhar acordada. Mas saiu de um lado do rio para o outro imediatamente oposto. Sem nadar e nem passar pela ponte. Apenas saltou. E com os sonhos que passou a sonhar, por falta de prática ou quem sabe de um período de adaptação, passou a sonhar com expectativas. Com os sonhos que foram se materializando e as expectativas que o acompanhavam, vieram as decepções. Expectativas são exatamente isso: o meio mais curto de se decepcionar. Algo como preparar um prato especial para uma festa especial que você vem planejando e no dia D e na hora H, você erra o sal ou alguém mais na cozinha exagera na pimenta. Lá se vai o prato, adeus festa. Assim com ela: adeus festa. Ninguém tem obrigação de conhecer sua receita e muito menos trazer seu prato preferido, na hora em que você quer e em bandeja de prata.
Tempo e experiência são uma combinação razoável, juntando-se uma pitada de bom senso, o que resulta num certo grau de maturidade. Aprendeu a sonhar, sim. Mas, expectativas, nem a respeito de si mesma, que descobriu que ela própria tinha por hábito, pregar-se surpresas. Expectativas sobre os outros? Convenhamos. É preciso ser ingênuo ou muito besta.
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 15/07/2005
Código do texto: T34620

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai