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"A barata"


Trecho de:
(*Recordações de uma menina*)
 Capítulo 5 _ (Bairro de Ipanema 1937)
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"A barata"


     "...Nos dias de aniversário, em que a elite de amigas se reunia na casa da Olga, os assuntos eram muito variados. Eram a continuação, praticamente, das reuniões semanais, apenas todas elas mais apuradas no vestir, perfume francês no ar e as inevitáveis joias que denominavam " joias das festas". Lembro-me claramente de uma vez nessas reuniões ditas de aniversário, como sempre a casa cheia, a Olga pra lá, pra cá e os convidados pululando ao redor das guloseimas. Eu fui protagonista de um fato que chamou atenção e ficou perdurando indefinidamente. Eu, inocentemente na berlinda, mesmo depois do fato apurado e eu inocentada. Era um dia de aniversário qualquer. Não sei de quem, mas o cenário era o mesmo descrito, com as mulheres dentro de casa, jogando conversa fora como se diz atualmente, num burburinho festivo, já conhecido; os homens na calçada nos tais papos privados, os meninos numa bagunça infernal, gritarias e correrias em volta do quarteirão. E eu? Eu, dentro de casa, forçada, aborrecida, calada e sentada numa poltrona, pois era menina e , segundo elas, não podia me misturar aos folguedos dos garotos. Tinha mesmo é que ficar ouvindo as conversas delas, vez por outra, comendo um docinho ou salgadinho para passar o tempo. Segundo mamãe, era também pelo fato de ser de noite, o quarteirão imenso e perigoso, pois mesmo naquela época, já os carros eram velozes demais. Acho que era por isso mesmo, pois a Lagoa Rodrigo de Freitas, sendo linda como sempre foi, propiciava a movimentação, pela sua orla de pessoas para se refrescar ou outras dentro dos carros passeando, pois era verão com calor imenso, mesmo com a ventilação sempre crescente com aquele arzinho sedutor. Era esse o quadro que tenho que descrever para continuar a narrativa. Como tudo estava exatamente como descrevi, era, entre um pensamento de desejo de estar lá fora e um outro de ter que ficar lá dentro, que aconteceu aquilo. Verão no Rio, tanto Ipanema como Leblon, não sei porque, as baratas, que eram muitas, saiam das tocas e ficavam andando pra lá e pra cá, numa ousadia tremenda. Eis que surge, voando, entrando pela salão aberto uma daquelas enormes, voadoras, com as asas eriçadas fazendo vôos tremendos, de um lado do teto, até a escada, voltando a se grudar nas paredes num vôo até bonito, mesmo se tratando daquele inseto tão repelente. Eu , da poltrona só observando a cena e, talvez para alertar o pessoal, dei um grito enorme: " Uma barata"!!! Ah! Foi um rebuliço doido, uma balbúrdia tremenda, um caos dos infernos, com a mulherada aos berros, correndo pra lá e pra cá, sem rumo certo, umas queriam subir a escada, mas era lá que a barata estava, outras de dirigindo correndo pra porta, ao mesmo tempo, aos urros numa confusão desgraçada. Eu, vendo aquilo tudo, incrédula, pois mesmo sendo uma barata não era motivo de tanta correria. Os homens entraram dentro de casa muito assustados sem saber o que estava acontendo, temendo talvez por uma coisa de extrema gravidade, mas era apenas uma barata. Ora vejam só: uma barata! Projetaram-se para a captura da dita cuja, mas por mais que o fizessem não lograram êxito e nada conseguiram. A danada tinha se escondido completamente na cortina que era como reposteiro, e depois para escada. Aí veio na cabeça delas que eu, com raiva de ter que ficar em casa, inventei a estória pra me vingar pela minha prisão. Voltou tudo ao que era antes, conversas etc, mas mamãe, não satisfeita, me levou para um canto lá e começou a me bater com raiva, ora no bumbum ora nas mãos para eu deixar de inventar coisas, causando aquele tumulto. Por mais que eu jurasse, com as lágrimas escorrendo pelo rosto e uma revolta enorme no coração, ela não se convencia que eu tinha falado a verdade. Com a interferência de todas, ela parou de me bater , mas me botou de castigo, no mesmo lugar que eu estava. Fiquei sem ação, pois não tinha mentido, tinha sido tudo verdade. Bem, tempo depois, aconteceu a mesma coisa. A mesma barata em cena, voando desesperadamente e aí foi em direção a elas a todo vapor. Com o esvoaçar a olhos vistos, a berraria, os urros, as corridas recomeçaram com maior intensidade, em cima delas. Os caçadores de baratas entraram novamente em desabalada carreira e recomeçaram a busca, logrando êxito na empreitada. Conseguiram matar a dita cuja que , como troféu, era mostrada a todas para que se acalmassem. Houve um silêncio enorme e, todas as pessoas viradas para mim, pediam desculpas pelo acontecido e pela injustiça que tiveram comigo. Foram me abraçar, pedindo perdão e, mamãe com lá grimas nos olhos me beijava insistentemente, pois tinha me batido a toa. Ficou comigo uma revolta imensa, pois já tendo se passado tantos anos, eu conseguia ver, tintim por tintim a injustiça que tinha acontecido comigo. Vejam só, agora revendo esses fatos é que percebo que às vezes cometemos injustiças sem termos provas cabais do dito crime. Ficou em mim gravado na mente. Coisas de criança. Serviram para análises posteriores, para eu nunca cometer tais acusações. Resultado da questão: deixaram eu ir brincar na rua com os garotos e eu nem me lembrava mais do acontecido, naquele momento , pois a euforia das brincadeiras conseguiu que esquecesse tudo, pelo menos naquele hora"...
Segue...

Myriam Peres - 15/02/2002
Myriam Peres
Enviado por Myriam Peres em 17/07/2005
Código do texto: T35066
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Sobre a autora
Myriam Peres
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 86 anos
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5 e-livros (275 leituras)
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Myriam Peres