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(Imagem meramente ilustrativa.)
 


     Dentre as muitas coisas que me tira a paz, está a corrupção no meio político e, o descaso com que muitas coisas importantes neste país são tratadas, como por exemplo, os idosos: Entretanto, este não é o foco central deste texto. 

     Embora falar de política e, dos desmandos e o pouco caso com que muitas coisas importantes são tratadas, renderia muito pano para manga: hoje venho por meio dessas mal traçadas linhas, homenagear um grande amigo que completa 82 anos de vida neste mês de março. Falarei do mesmo, de uma forma incógnito, filosófica, para preservar a identidade do personagem e, por extensão, dos seus
.


     Ontem eu estava sentado a um banco, um destes existentes nas varias praças de são Paulo. Estava ali, absorto, com meus pensamentos. Sem que eu notasse, um cidadão sentou-se a outra extremidade do banco. Ali ficamos ambos calado.

     - A vida é bela, somos nós que a torna insuportável – disse o tal que a pouco chegará – você não acha amigo?

     - Sim... - disse eu, sem muita convicção, pois não havia ouvido com clareza o que fora dito antes. 

     - Veja só essa praça – prosseguiu ele –, eu me lembro de quando eu era molecote, ganhei muitas bolas de gude dos garotos... Aqui era um lugar decente para se viver. Não existiam esses bancos, essas mesas para jogar dama, xadrez, nada disso. Podíamos brincar sem medo. 

     Todo mundo respeitava todo mundo, hoje nada disso existe mais... Aqui, quando chega à noite, o que si vê, são casais de namorados se agarrando por ai, sem o menor pudor, outros fumando seu baseado, na maior cara lavada.

     Eu ouvia aquele senhor, com contumácia. Cada palavra que ele proferia me remetia a um ponto histórico. Meu interlocutor, embora de idade avançada, falava com plangência. Seus olhos, em dados momentos, brilhavam, revelando um mar de águas límpidas, saudoso dos dias de outrora. Ante ao vigor de cada palavra, eu, mero ouvinte, me fazia ser, pois sei o que é sentir saudades. Como contra-argumento, passei a ajuizar sobre o que fora dito.

     - Caro amigo, embora tenha idade para ser seu filho, quem sabe, até neto; folgo-me em saber que sentes saudade dos dias idos. De fato, eu sou um ávido estudante dos tempos idos, gosto de me inteirar de fatos históricos. Ouso dizer, que um dos meus maiores prazeres da vida, é ler é falar com pessoas que tem histórias para contar, tal qual o senhor. A este ponto da minha gabolice, o ancião se pôs a chorar, similar a uma criança. Eu não disse palavras, ante as lagrimas do mesmo. Tendo as emoções amainadas, ele passou a me contar sua vida.

     - Meu indulgente rapaz: tenho hoje, a contar desde o dia em que nasci 82 anos bem vividos, nessa minha vida, fui pau para todas casta... Tive três amores na vida, mas um já não há – minha amada esposa, me deixou já faz 16 anos – hoje o tudo que tenho é uma aposentadoria, da qual não posso reclamar, pois, modestamente, sempre tive um bom ordenado, o que me possibilitou ter uma boa aposentadoria. 

     Tenho uma casinha modesta para morar, outras tantas alugadas. Meu filho mais velho é um militar de alta patente, já tem seus 58 anos. Minha filha caçula têm 52 anos, também é formada em medicina.
 

     Posso dizer que tenho tudo, mas não tenho nada. Os filhos não veem me visitar, os poucos amigos que fiz na vida, já morreram todos ou estão com o pé na cova... O bem da verdade, é que eu sou um sobrevivente.

     Creio que já vivi tudo, e já vi de tudo que se possa imaginar. Há quem diga que estou a fazer hora extra, mas digo-lhe uma coisa; mesmo quando minha coluna me impede de levantar da cama, mesmo quando sinto a baforada fria da morte a rondar minha alcova, mesmo quando a solidão me lanha o couro, mesmo sobre estrema pressão, - situação em que muitos, pediriam pinico, desejasse a morte – eu olho para teto do meu quarto, como quem divisa o céu, eu digo: Deus me dê mais um tantinho assim de vida! Para que eu possa ver mais um nascer do dia e um por do sol. Sabe por que, meu caro mancebo? A vida é bela, somos nós que a tornamos complicada de ser vivida.

     - De fato caro senhor – eu disse consternado ante a tal argumentação – a vida é bela, porém, eu vou mais além. Eu não sei se chagarei aos seus 82 anos, mas eu gostaria de viver para sempre, pois tenho muitas coisas para aprender, que apenas 80 anos seriam insuficientes.

*****
 

 
 
Nota ao leitor: este texto é uma singela homenagem que faço a um grande amigo, o qual eu chamo de meninão, por sua vivacidade no declamar a beleza da vida. Neste mês, ele completa 82 anos; um dos seus maiores orgulho na vida é, ter vindo de MG, um analfabeto, estudou e, por quase 50 anos de sua vida, trabalhou como ferroviário. Com o parco ordenado, conseguiu dar uma boa formação aos filhos. A menina é médica e o menino é um figurão do exercito, que hoje trabalha ao lado da presidente Dilma.
Felipe F Falcão
Enviado por Felipe F Falcão em 09/03/2012
Reeditado em 10/03/2012
Código do texto: T3544008
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Sobre o autor
Felipe F Falcão
São Paulo - São Paulo - Brasil
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Felipe F Falcão

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