Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

QUANDO AS AVES DEIXAM SEUS NINHOS

Li o poema de um colega do Recanto sobre seu bebê que está partindo pra cuidar da vida. Entendo perfeitamente o que ele diz e sente. Nenhum argumento diminui a sensação de perda e tristeza da gente nestas horas. Eu sou provavelmente uma das que dirão que ele está indo em busca de seus sonhos e que os filhos, os temos não para nós, mas para si próprios e para o mundo. Foi assim que minha mãe me criou e cresci ouvindo isso. Sei que doía nela cada vez que um de seus bebês deixavam o ninho e voavam. E olhe que foram sete.
Eu sei, meu amigo, que nada, absolutamente nada pode anular esta sensação de perder algo que caiu feito um presente de Deus ou dos Deuses, como queira, no centro da nossa vida. Também sei que ninguém é mais importante do que eles para nós. Meu bebê tem hoje dez anos e todas as vezes em que tenho que me afastar dele, por poucos dias que seja, é um exercício de renúncia constante que tenho que fazer. Renunciar ao sol que aquece cada momento do meu dia. Renunciar ao seu canto alegre que enche a casa (às vezes me deixa doidinha) e que quando não está, transforma nosso lugar numa espécie de túmulo. Renunciar, principalmente, a esta sensação, que por mais que neguemos, existe dentro de qualquer pai e mãe: a da posse. Não a posse negativa, que controla e algema. Mas a posse que tenta proteger e transformar seus caminhos em ruas floridas e felizes. Esta é a pior. Temos a sensação que ao renunciar a isso, estaremos expondo nossas crias a um mundo mau e cruel. E ainda por cima, nos privando de suas presenças tão queridas para nós próprios. É o que a gente poderia chamar de “lado egoísta da maternidade e da paternidade”.
Não sei se isso ajuda, mas a verdade é que temos que confiar naquilo que fomos para eles, naquilo que ensinamos a eles com nossas atitudes e principalmente, no que poderemos ensinar ainda com uma atitude positiva e confiante na sua partida. Positiva, porque sabemos que eles irão caminhar bem, com a bagagem que colocamos em seus corações e confiantes, porque a nossa confiança só servirá para aumentar neles a confiança em si próprios.
Não tenho certeza que conseguirei fazer isso quando, algum dia, meu bebê, já bem crescido, for buscar sua própria estrada, sua própria vida. Mas certamente é  o que tentarei fazer, como fizeram meus pais. Talvez seja um pouco mais duro ainda, porque em algum momento lá atrás, tive que deixar ir embora um de meus bebês. Para sempre. E neste caso, não há argumento que anule a dor e tampouco, que a alivie. Meu bebê se foi e não voltará, por muito que eu o deseje...
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 19/07/2005
Código do texto: T35709

Copyright © 2005. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154037 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 09:13)
Débora Denadai

Site do Escritor