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VAI OUTRO TRAGO, AMIGA?

           Eu tive uma vez uma amiga. Falo isso como quem anuncia uma grande descoberta, já que pra mim, ter amigA é novidade. Meus melhores amigos sempre foram homens. Mesmo estando muito feliz da vida de ter nascido vestida de moça, sempre gostei do mundo masculino, sempre fui muito bem recebida nele. Tive grandes amigos. Todos homens. As mulheres, ou eram colegas de escola, de trabalho ou de passeio. Amigas, nenhuma. Não com este A imenso no início da palavra.
Em vários momentos me perguntei a razão disso. Respostas diversas. Primeiro, desde criancinha, gostava muito mais de bicicleta, bola, papagaio (ou pipa, dependendo de onde estamos), peão, coisas de menino. Esta coisa de arrumar casinha e embalar boneca, acabava fazendo porque as outras meninas faziam e a gente termina na onda. Mas nunca gostei de gente muito delicadinha e doce. Enjoava logo. Muito doce me dá um enjôo danado. Terminava que as outras moças também não gostavam de mim. Especialmente porque, além de não ser doce, era muito amiga dos meninos, o que, traduzido em linguagem tipicamente feminina, era uma rival em potencial.
A segunda coisa: sempre fui fã da Madrasta Malvada. Achava que a Branca de Neve não passava de uma criaturinha safada que se valia de seu ar docinho pra sacanear todo mundo com aquela cara de vítima. Desculpem-me as minhas colegas da espécie, mas mulher é bamba em fazer isso. Daí decorre o fato de que eu não tinha a menor paciência com as desilusões amorosas e os lamentos chorosos das minhas potenciais amigas, sempre “vítimas daqueles homens desalmados e cafajeste” e invariavelmente perguntava se ela não tinha feito por merecer ou deixado acontecer.  Resultado: adeus, amiga.
And last, but not least, eu sou uma tagarela, mas incoerente. Acho que, ao contrário do que se diz, amigo não é aquele com quem você pode falar de tudo. Amigo é aquele a quem você não precisa dizer absolutamente nada. E mesmo assim, ele vai entender tudinho, tim tim por tim tim. E se você chorar, ele chora junto, mesmo sem saber quem morreu.
É aqui que entra a minha amiga. Ela era esta pessoa. O “era” é só uma formalidade, porque ela morreu. Como eu tenho meu lado místico, ela ainda “é”.  Ela me ajudou sem que eu pedisse, me convidava pra ir na casa que ela tinha na chácara nem que fosse só pra gente olhar pro horizonte, puxar uma boa tragada no cigarro, tomar uma bicada de cachaça e olhar uma pra outra e dizer: “éééé´...”. E a gente já sabia exatamente o que é que “eeera”. Nós não nos incomodávamos com alguns longos silêncios que aconteciam entre a gente. Fazia parte da conversa. Ainda hoje, fecho os meus olhos e vejo a Lúcia, com aquela voz meio rouca, meio grasnada e dizendo “éééé...”. Vai outro trago, Lúcia?
Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 20/07/2005
Código do texto: T36105

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai