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NINHO DE CUPINS

De repente, não fechou a porta. A fechadura não encontrou encaixe no batente para trincar a intimidade... Como? A primeira reação é de perplexidade com a suja realidade exposta. Há pouco era uma camada sedosa de tinta dando a aparência de asseio e conforto. Um toque! A ombreira desmancha e surge uma repugnante colônia de cupins, devorando tudo com uma exímia estratégia arquitetada no polimorfismo funcional das várias castas. A porta isolada perde o significado...
Casais reais, alados e reprodutores; operários, e soldados, sem asas e estéreis... Cupins constroem a colônia no escuro e se alastram por todo o batente até a triste realidade de uma ruína entregue aos insetos. Não há encaixe para o trinco, não resta esperança para salvar o batente, não há função para a porta escancarada...
Especula-se sobre a origem de tão abominável e arquitetada colônia. Um casal real que, após a revoada, deixou as asas e entregou-se a fundação de um império e a proliferação dos seus operários e soldados no ventre fértil da fêmea... Uma ocupação continuada, já com toda a alvenaria comprometida e com o previsível surgimento de novos focos... Ou uma sociedade brutal sem destino, reduto de sujeições, em confronto com a estratégia de dominação e reprodução sem limites dos cupins reais...
A surpresa diante da extravagante descoberta dos circunstantes, a realidade objetiva dos devoradores...
Novas revoadas? Desvendada a colônia é difícil distinguir as posições... Os fatos probatórios tiram as asas, alguns cupins sucumbem às intempéries, outros desaparecem em ousadas travessias nas entranhas, nos subterrâneos e nos telhados da habitação.
Passado o susto, resta trocar o batente e a porta, arcar com o custo com os grandiosos estragos realizados pelos silenciosos cupins e aguardar, resignada, a manifestação de novos focos, tentando ainda manter um cerne de crença imunizado das pragas.
Encerro o dia com o problema doméstico diagnosticado. Ligo a televisão para acompanhar o final do depoimento de um dirigente partidário acobertado com habeas corpus. Respostas por portas travessas. Não consigo esquecer a colônia de cupins...
Helena Sut
Enviado por Helena Sut em 21/07/2005
Código do texto: T36492
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Sobre a autora
Helena Sut
Curitiba - Paraná - Brasil, 47 anos
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Helena Sut

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