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                              “Amizade Verdadeira”.


Era um medíocre repórter de jornalzinho do interior.
Sempre à caça de alguma notícia boa, que me lançasse na capital.
Mas, parece que as coisas cada vez regrediam e morreria sendo apenas repórter de um jornaleco.
Certa vez, voltava de uma cidade vizinha, onde mais uma vez não conseguira a entrevista com famoso banqueiro da cidade, que me colocaria em destaque no meu pequeno jornal.
Ao passar por uma ponte velha, me deu vontade de molhar os pés.
Foi difícil chegar até a água, pois havia muitas pedras.
Finalmente consegui chegar a uma água fresca e mansa, que corria por pequeno riacho, quase imperceptível da estrada.
Só que eu não era o primeiro.
Já se encontrava no local, um senhor de avançada idade.
Como é praxe no interior, todos se cumprimentam.
E assim foi, ficamos ao lado um do outro sem nada que fazer.
Tirei do bolso do paletó, um pacote de bolacha e ofereci a ele.
Antes de aceitar, olhou para mim demoradamente.
Parecia querer ler meus pensamentos.
Pegou duas bolachas, me agradeceu, depois falou:
-Você me conhece?
É que eu ando muito por aí, mas minha memória está cada vez mais fraca.
Posso ter me esquecido.
-Não, pessoa simpática como o senhor a gente não esquece.
-Você me lisonjeia.
-Não, é que leio no senhor uma simpatia e uma honestidade difícil de encontrar hoje em dia.
-Obrigado rapaz, obrigado.
-O senhor deve ser vendedor, sou repórter na cidade e se puder ajudá-lo conheço quase todo mundo por aí. Terei muito prazer em ajudá-lo.
-Se também de alguma maneira puder ser útil.
-Só o fato de conversar com o senhor, tenho certeza que meu dia será proveitoso.
Venho da cidade vizinha onde tentei entrevistar o dono do banco, mas ele não tinha tempo para mim.
-Por acaso é o Dr. Osvaldo?
Um italiano de maus bofes?
-Deve ser, não consegui nem vê-lo.
-Então você é repórter?
Se me lembrar, vou tentar dar uma mãozinha para você.
-Conhece o homem?
-Acho que não, mas conheço tanta gente.
-Sei que não vai poder me ajudar, mas só sua bondade em dizer que vai tentar, já ajuda.
Bem vou embora se precisar de mim sou o Carlinhos, todos me conhecem na cidade.
-Menos eu, disse o velho sorrindo.
-É agora até o senhor.
Aparece na redação para tomar um café comigo.
-Prometo que irei, estou atarefado, mas arrumarei um tempo.
Subi para a estrada e fui embora.
Pensei.
Como é gostoso ser assim, acho que deve ser aposentado, quem sabe até que está desempregado.
Mas se me procurar e precisar arrumo um bico para ele.
Novidade maravilhosa, logo na segunda feira meu chefe, me chamou na sala dele.
-Vá depressa para o banco rural.
O dono Doutor Osvaldo Cabral, está querendo falar com você.
-Mas na semana passada ele não quis me atender?
-Provavelmente soube que você trabalhava comigo, já tive com ele alguns negócios.
Percebi ser lavada mentira, mas fui para a agência.
Ao chegar lá, meu carrinho foi colocado em lugar de destaque da diretoria e fui recebido com se fosse o prefeito ou algum político da capital.
-Rapaz se você falasse que era conhecido do Coronel Guaracy, mas não falou nada, sei você é modesto não quis queimar o cartucho.
Agora já sabe que a palavra dele aqui é uma ordem, pode dizer a ele.
Não entendia nada, mas nestas horas o melhor é ficar calado e comer o macarrão enquanto está quente.
Fiz, acho que a maior reportagem daqueles tempos, elucidando tudo que os leitores queriam.
Meu chefe, só não chorou porque jacaré não chora, a menos que esteja no horário do almoço.
Ninguém conhecia o homem que eu vi na beira do rio.
Deve ser algum vendedor passam, muitos por aqui, mas deve ser da capital.
Pena agora estava na eminência de ser promovido, poderia ajudá-lo com certeza.
Passando pela estrada lembrei e pensei, talvez ele esteja no riozinho.
Maravilha, estava lá.
-Meu amigo como está, tenho notícias boas fui promovido.
Agora se tiver algum problema em nossa cidade sou a pessoa certa para ajudá-lo.
Não se envergonhe, se tiver desempregado fale agora, pois tenho ótimos bicos para você.
Agora sou repórter chefe e todos na cidade me consideram.
-Isto quer dizer que o Cabral te recebeu?
Conseguiu a reportagem que tanto queria?
-Sim como você sabe?
Espere, ele falou no coronel Guaracy, é o senhor?
-Sim sou o Guaracy, para os amigos como você.
-Desculpe coronel e eu te oferecendo um bico na cidade que é praticamente sua.
Você me lisonjeou, como nunca fui tratado.
Mesmo sem saber quem eu era, você matou minha fome.
Propôs-se a me arrumar um bico, não é como você disse?
-Desculpe é que pensei que o senhor fosse uma pessoa humilde, desculpe digo, sem dinheiro e me propus a ajudá-lo pela simpatia que senti pelo senhor.
-A recíproca é verdadeira, por isto que quando cheguei em casa pedi para minha filha ligar ao banco.
-Caramba então ainda lhe dei trabalho, obrigado meu amigo.
-Isto me chame de amigo, pois é isto que somos.
-Como você vai para a cidade, está de carro?
-Sim, nós nunca estamos sozinhos, quando saímos na estrada vi que a alguma distancia estava um enorme carro moderno e pelo menos seis homens.
-É minha escolta, minha filha não me deixa sair sozinho.
-Aquele dia que te conheci seus seguranças, eu não os vi.
-Não deixei eles se aproximarem, pois queria conversar francamente, coisa que não consigo, quando o pessoal sabe quem sou.
-Ainda é cedo vamos para casa almoçar.
Depois, você vai embora.
-Nada tenho que fazer agora.
É muita honra, conhecer sua casa.
-Você vai conhecer minha filha, não ligue, é uma solteirona, precisa urgentemente se casar, só que o marido morreria no primeiro mês.
É uma megera, só sabe brigar comigo.
-Realmente deve ser uma pessoa muito má para tratá-lo assim.
Quando chegamos à sua casa estacionei próximo de seu carro.
Veio correndo um rapaz e falou:
Aí não pode estacionar, coloque o carro lá atrás.
Quando ia tirar o carro do local, meu amigo falou:
-Deixe aí mesmo, o rapaz ficou calado e desapareceu das vistas.
Não ligue é coisa dela, você já começou a ver como é né?
De repente, surgiu a nossa frente uma mulher simplesmente bela, digo maravilhosamente bela.
-Então o senhor que é o amigo de meu pai e esta levando ele pro mau caminho?
-Sim senhora, mas o motivo de vir aqui é para parabenizá-lo, pois não sabia que tinha uma filha tão bela, a senhora já é comprometida, pois não?
-Ainda não encontrei um homem honesto, que queira assumir a responsabilidade de um lar.
-Realmente senhora homens bons estão em extinção.
-Mas fui convidado para o almoço e não quis ser descortês, se a senhora quiser vou embora.
- Não, fique conosco, pois tenho que avisá-lo dos defeitos de certa pessoa.
Qual é o seu nome senhor?
Carlos Henrique Soares, para servi-la senhora.
Senhorita e pode me chamar de Maria.
Sim senhorita Maria e também queria agradecer pelo emprenho que tiveram junto ao gerente do banco, que me deu a entrevista.
Ah... então foi ao senhor que ajudamos, ele nos deve alguns favores.
-Pelo jeito estão se entendendo bem, vou entrar para adiantar alguma coisa, tenho que mandar o menino ao banco também.
E meu amigo entrou em casa, deixando a simpática filha em minhas mãos.
Falamos de tudo um pouco, ela além de inteligente, via-se que era culta e dominava qualquer assunto.
Então Carlos, tive que fazer uma escolha e optei por ficar com meu pai na administração da fazenda e da usina.
Temos pessoas de confiança em todos os postos, mas por trás deles, está a mão forte desta, que vos fala.
Meus parabéns, seu pai esqueceu de falar que além de bela, tinha um gênio das finanças atrás dele.
Almocei sozinho com Maria, pois seu pai teve que sair para resolver alguns problemas urgentes.
Depois do almoço, saímos para tomar um refresco na varanda da enorme casa deles.
Já era quase cinco horas da tarde, e eu não queria ir embora, os assuntos se renovavam, estava muito bom conversar.
Me senti em casa pela primeira vez.
-Maria acabamos de nos conhecer e pela primeira vez me senti totalmente à vontade, para falar até de assuntos particulares com você, acho que em outras vidas fomos irmãos.
Ou algo mais:
-Epa aí também não.
Rimos gostosamente.
Eu segurei sua mão e não largava, ela também não fazia nenhum esforço para soltá-la.
De repente, entra o coronel e soltamos imediatamente.
Mas ele viu.
Tomamos outro café, que foi uma
Janta.
Mas meu carro não quis pegar.
O coronel se propôs a mandar o carro da segurança me deixar em casa e no outro dia mandaria um mecânico consertar, depois eu viria buscá-lo.
Como teríamos carona, conversamos mais um pouco.
Maria se ausentou para tomar um banho e eu falei com o coronel.
Nunca falei tão francamente com alguém.
Se quiser, eu vou embora agora e não volto mais, porém quero que saiba que me simpatizei demais com sua filha.
Como meu amigo que é, se você quiser não volto mais e a nossa amizade continua.
Carlos, vocês me deixaram feliz, pela primeira vez eu a vi sorrir espontaneamente, desde a morte da mãe, por favor, venha sim, dome esta leoa e me faça feliz como nunca um pai o foi.
A partir de então visitava a fazenda cada três ou quatro dias.
Depois ia buscá-la para sair.
A princípio com escolta.
Depois sozinhos.
Até que cheguei ao velho, era dia de natal.
Dei para ele uma arma antiga, que foi de meu avô e disse que queria algo em troca.
-Já sei você sempre gostou do Jipe.
Era um super moderno jipe americano de rodas enormes.
Então ele é seu o que mais você queria?
Maria falou:
-O jipe não vai, porque é meu.
Peça outra coisa, este você perdeu Carlos.
Minha amizade me obriga a falar:
Se você além de ser meu melhor amigo, seria também meu pai e sogro?
Nunca vi tantas lágrimas verdadeiras de alegria e consideração.
Abraçamo-nos, os três e jurei amá-los e protegê-los enquanto vivesse.
Fui obrigado a sair do jornal, pois precisava ajudar a administrar a empresa.
Mas aos sábados à tarde, íamos os três, em algum córrego qualquer, para pescar e jogar conversa fora.
Fazemos isto até hoje, infelizmente o coronel não está mais conosco, ..melhor acho que continua sim, pois sinto sua presença sempre que fico à beira d’água.
Uma amizade simples, me rendeu um casamento e uma família maravilhosa.
                                               
                                                        OripêMachado.
Oripê Machado
Enviado por Oripê Machado em 04/05/2012
Reeditado em 05/05/2012
Código do texto: T3650141
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Sobre o autor
Oripê Machado
Osasco - São Paulo - Brasil, 66 anos
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