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               Formigas Carregadeiras

                    Lá no meu Buraco de Peixe, tinha uma pedreira, e era de lá que a maioria das famílias tirava o sustento.
                    Pela manhã, os homens iam em direção da pedreira, dois a dois, sozinhos, a pé, ou de bicicleta.
                    Eu era uma garotinha no alto dos meus cinco anos, ficava debruçada na janela de venezianas verdes, olhando o movimento daqueles homens, todos indo à mesma direção. Eu olhava os passantes, volta e meia uma bicicleta cruzava o meu ponto de visão, mas os homens continuavam seguindo. Eu costumava seguir meu pai com os olhos, até que ele virasse um pontinho preto... longe, e, imaginava o pai, como uma das minhas formigas imaginárias, cavando não sei quê, já que não se podia cavar a pedra... Mas eu sempre imaginava aquelas formigas humanas e pretas, cavando as pedras.
                    O movimento da pedreira era controlado por um sinal sonoro. Sete da manhã, início dos trabalhos, onze e meia o almoço... nem precisava de relógio, o apito indicava que o pai logo chegaria para o almoço. O almoço sempre feito no fogão a lenha. Um cardápio até hoje incompreensível por mim: Macarrão, arroz, batata, feijão. A verdura, farta, das hortinhas lá no fundo do quintal de cada um, era sempre refogada, quase nunca em salada. E a carne, sempre a mesma, o charque que era comprado em peça lá no armazém do Seu Souza, na Vila.
                    Depois do almoço, o pai pitava o seu cigarro de palha e em seguida, apanhava a sacolinha de pano feito pela mãe, lá dentro, duas fatias grossas de pão de casa, com banha ou margarina, e a garrafa de café, que não era térmica.
E assim, eu corria para a minha janela, para ver as formigas voltando à pedreira. Eu ficava olhando o pai caminhando, até sumir lá longe e virar minha formiga de estimação. 
                   Durante a tarde, ouvia-se o sinal. Se fosse antes das três, podia esperar que mais dois sinais seguidos se dariam. Era o aviso de explosão.
Um sinal era disparado, avisando que logo haveria a explosão, depois mais um e no último bum! e a gente via lá longe, aquele mar de fumaça.
                   E assim, ao entardecer, uma formiga ia voltando aos poucos a ser pai...
Lili Maia
Enviado por Lili Maia em 21/07/2005
Reeditado em 08/01/2008
Código do texto: T36587

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Sobre a autora
Lili Maia
Curitiba - Paraná - Brasil
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Lili Maia