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                       Fotografia: Breno Fortes

                                     Nota sobre a imagem:
A tapera descrita em minha crônica é muito parecida com a  fotografia tirada por Breno Fortes, fotógrafo de Brasília - www.brenofortes.com - em seu passeio pela Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá - A tapera da minha infância fica no trecho entre Piraquara e Roça Nova.

  

               A Tapera               

               Andando pelas trilhas ao lado dos trilhos do trem, ia eu, mamãe, e mais uma quadra de irmãos. À frente da tropa, Banzé ia também.
               A velha tapera, à beira da linha traduzia todos os meus medos de menina sonhadora e medrosa. Ao mesmo tempo, satisfazia os meus desejos da fascinação pelo desconhecido de encontrar ninhos de passarinhos com seus ovinhos coloridos, amoras silvestres, docinhas e brilhantes e o que mais minha imaginação desejasse.
               Pelo caminho, encontrávamos bromélias, em vários tons de rosa, a cotiara de cruz na cabeça, enchendo de medo a gente, e, pobre coitada, na verdade, também tinha um enorme medo de nós.
               Caminhávamos em meio ao capinzal e eu sentia aquele cheiro inconfundível de capim limão, em grandes tufos, ali plantados, certamente há anos, ainda teimavam em se dar ao tempo, sem tempo prá colher.
               Mais adiante, um antigo pessegueiro, mostrava suas chagas expostas de resina, as cicatrizes dos que chegaram antes. E os pêssegos, pequenos e desnutridos, já não prestavam ao paladar. Mesmo assim nos deliciávamos com eles.
              Caminhando um pouco mais, descobríamos uma velha panela de esmalte, que até hoje não consigo entender tão alva e sem ferrugem. Mamãe a recolhia, para plantar avencas, que mais tarde secariam ao sol do descuido de professora, sem tempo para essas tais jardinagens caseiras.
               Ao que parecia ser uma antiga varanda, apareciam-nos profusões de beijos multicoloridos e singelos, a nos brindar nas tardes ensolaradas e frientas de julho, do nosso lugar.
               Nos fundos da tapera, tinha uma enorme quantidade de pinheiros, que era o nosso verdadeiro objetivo passar por ali, o de catar pinhões, aos montes. Abaixo do pinheiral, uma grama verdinha, bem diferente do capinzal que cercava a tapera. Ali, depois de recolher muitos pinhões, mamãe nos presenteava com pão com banha e sal, café na garrafa de pinga que o pai sempre deixava vazia e rodelas de salsicho, o parente ainda mais pobre da mortadela, mais a torta de banana e farofa que até hoje nenhuma de nós, as filhas da mãe, sabemos fazer direito.
               A volta era sempre por cima dos trilhos do trem, entre os dormentes, dormidos, daquele nosso lugar...

 

 

Lili Maia
Enviado por Lili Maia em 21/07/2005
Reeditado em 08/01/2008
Código do texto: T36600

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Sobre a autora
Lili Maia
Curitiba - Paraná - Brasil
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Lili Maia